FLUSSER Mundo Codificado

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  • \

  • Vilm Flusser

    O MUNDO CODIFICADO POR UMA FILOSOFIA DO DESIGN E DA COMUNICAO

    organizao Rafael Cardoso traduo Raquel Abi-Smara

  • , .

    UN151NOS

  • INTRODUO Rafael Cardoso 7

    FORMA E MATERIAL 22

    A FBRICA 33 A ALAVANCA CONTRA-ATACA 45

    A NO COISA [ 1] 51 A NO COISA [2] 59 RODAS 66

    SOBRE FORMAS E FRMULAS 75 POR QUE AS MQUINAS DE ESCREVER ESTALAM? 80

    CDIGOS O QUE COMUNICAO? 88 LINHA E SUPERFICIE 101

    O MUNDO CODIFICADO 126

    O FUTURO DA ESCRITA 138

    IMAGENS NOS NOVOS MEIOS 151

    UMA NOVA IMAGINAO 160

    CONSTRUC0ES

    SOSRr: A PAI AVRA DE lGN 180

    O tv10D( Df vrR DO DfSI ,N[R 187 orSIGN OB T AClJ () PARA A r

  • INTRODUO Rafael Cardoso

  • Um dos maiores pensadores da segunda metade do sculo 9 XX viveu durante mais de trinta anos no Brasil. As impli-caes desse fato ainda no foram devidamente digeridas, nem aqui, nem internacionalmente. Vamos a elas. Que um dos herdeiros mais brilhantes da tradio europeia de an-lise crtica tenha sido despejado pelo exlio neste envelhe-cido Novo Mundo, conseguindo aqui se refugiar da pior barbrie a assolar a repblica da Razo desde sua proclama-o no Sculo das Luzes, que tenha vivido e trabalhado no Brasil grande de Getlio e Juscelino Kubitschek, abraan-do a possibilidade de uma ltima encarnao do Progresso no chamado pas do futuro, e que tenha sido enxotado des-sa falsa utopia pelo recrudescimento do mesmo terror que o trouxera aqui, surgido dessa vez das entranhas profun-das do suposto para1so nos trpicos; finalmente, que tenha regressado s origens, para pregar a novidade urgente de um futuro "sem histria" e, enfim, para morrer uma morte estpida e precoce - tudo isso anuncia com uma devasta-dora coerncia alegrica os grandes dilemas que o mundo hoje enfrenta nos conflitos geminados entre tecnologia e misria, liberdade e fundamentalismo, cultura e violncia.

  • Se for plaus1vel sugerir que o planeta caminha clere em direao ao atropelo fatal de seus valores mais essenciais, ento hcito enxergar na pessoa de Vilm Flusser o pre-nncio proftico do desastre - e tambm, quem sabe, as primeiras indicaes de uma sada para a maior crise que a humanidade j enfrentou, aquela de sua prpria sobrevi-vncia coletiva.

    Nascido em 1920 e falecido em 1991, na cidade tcheca de Praga, o filsofo Vilm Flusser viveu no Brasil entre 1940

    10 e 1972, realizando aqui parte importante de sua formao e de seu trabalho. Este no o lugar para uma anlise detida de sua vasta obra. Faz tempo que outros, mais capacitados para empreend-la, j iniciaram tal esforo. A inteno des-ta introduo bem mais modesta: apresent-lo a um p-blico que, em sua maioria, o desconhece, mas cuja rea de interesse a mesma eleita por esse grande pensador, como foco privilegiado para algumas de suas mais intrigantes consideraes. Ao contrrio da maioria dos filsofos mo-demos, que costuma concentrar suas anlises na lingua-

    ,

    gero verbal ou nos cdigos matemticos, Flusser dedicou boa parcela de seu gigantesco poder de reflexo s imagens e aos artefatos, elaborando as bases de uma legtima filo-sofia do design e da comunicao visual. Pela quase abso-luta carncia de iniciativas semelhantes, a leitura de sua obra deveria ser obrigatria para qualquer formao nes-sas reas. Todavia, ele no deve ser estudado apenas por ser um dos poucos pensadores de peso a voltar sua ateno para esses assuntos, mas por ser um pensador nico, capaz de situar imagem e artefato em seu devido lugar, no centro nervoso da existncia contempornea.

    I

  • At a, Flusser tem algo em comum com estudiosos como Roland Barthes, Marshall McLuhan, Jean Baudrillard ou Susan Sontag, cujos escritos so dedicados em grande par-te a desvendar o papel de novas mdias e meios de comu-nicao no mundo moderno e no ps-moderno. No entan-to, diferentemente de outros "pensadores de mdias" mais conhecidos, ele trouxe ao assunto o rigor prprio sua for-mao filosfica, e suas anlises tendem a se ocupar mais da identificao de estruturas de pensamento do que de sua recepo em determinado meio ou contexto. Flusser 11 um pensador de causas, e no de comportamentos; por conseguinte, ele no hesita em ultrapassar as limitaes metodolgicas necessrias ao pensamento de cunho hist-rico. Para reas marcadas desde sempre pelo predomnio de abordagens e pressupostos advindos das cincias sociais

    -como o caso tanto da comunicao quanto do design -, o efeito surpreendente e enriquecedor. Passado o susto inicial, melhor dizer, visto que o autor afeito a gene-ralizaes e aproximaes capazes de provocar ataques de apoplexia em qualquer cientista social ortodoxo.

    O texto de Flusser dotado de um vigor sem paralelo

    nos estudos de design, mdia e comunicao. E claro, sucinto, livre de jarges e at de notas de rodap, pelas quais de-tinha notria aversao. Trata-se de uma escrita que seduz por sua simplicidade aparente na mesma medida em que impresswna por sua consistncia, prova das mais duras investidas crticas e de inmeras leituras reiteradas. Isso verdade especillmentc com relao aos textos produzi-dos durante o ultimo decnio de sua vida, quando a maes-tria de sua tcnica como escritor a flori\ com tn\ior impacto.

  • A impresso que fica de estar lendo no algo provisrio, como deve ser necessariamente toda contribuio ao edif-cio coletivo das cincias, mas algo definitivo, como as me-lhores obras literrias e filosficas . Para o aluno de faculda-de ou de ps-graduao, habituado a lutar com alarmante freqncia contra a sintaxe confusa dos mestres encarrega-dos de ilumin-lo, a experincia grata e refrescante. O 'perigo pode ser o efeito contrrio- o de ser levado insensi-velmente na correnteza do pensamento flusseriano com a

    12 displicncia de uma folha a deslizar na superfcie de um ria-cho doce e cristalino. Que ningum se engane com a aparn-cia amena dessa gua, cuja superfcie transparente esconde a profundidade vivente de um oceano!

    Vale a pena repisar aqui alguns pontos do pensamento flusseriano de especial interesse para os estudantes de de-signou comunicao. Primeiramente, cabe frisar que essas reas - divididas por nossas vs burocracias acadrn!cas em departamentos distintos - so, para Flusser, desdobra-mentos muito prximos de um mesmo fenmeno maior. Interdependentes, ambas so frutos de um processo de

    - ' codificao da experincia. Todo artefato produzido por - -

    meio da ao de dar forma matria seguindo uma inten-o. Do ponto de vista etimolgico, portanto, a manufatura corresponde ao sentido estrito do termo in + formao Oite-ralmente, o processo de dar forma a algo). No sentido am-plo, fabricar informar. Da deriva o sentido, menos usual, de "fabricar" como inventar ou engendrar idias ou verses, como na frase .. fabricar um libi".

    Todo objeto manufaturado, por sua vez, tem como meta transformar as relaes do usurio com seu entorno de

  • modo a tirar dele algum proveito. Ao concretizar uma pos-sibilidade de uso, o artefato se faz modelo e informao. Por exemplo, depois que se v uma alavanca em operao e se compreende o princpio empregado, no mais possvel olhar para qualquer vara de madeira ou metal sem reconhe-cer seu potencial de aplicao mesma finalidade. O que antes era um simples pedao de pau adquire uma funo e um significado especficos pela existncia prvia de um conceito. Ou seja, informar tambm fabricar.

    Tudo isso pode parecer bvio, mas no . Se fosse, no 13 dividiramos as atividades de design em "projeto de produ-to" e "comunicao visual", como muitos continuam a fazer em deferncia a uma tradio gasta de prtica profissional. Muito menos separaramos "programao visual" de outros aspectos da comunicao, com um reles intuito corporati-vista de preservar feudos profissionais e de ensino. Afinal, ser que um livro ou uma revista no tm uma existncia tridimensional, no so construdos de matrias-primas e fabricados mediante processos industriais, no so distri-budos e vendidos como produtos?

    Por outro lado, ser que as cadeiras ou as garrafas no participam de um universo de significao regido por cdi-gos e sistemas prprios? Algum pode defender seriamente que os artefatos no sejam tambm suportes de informao, que no tenham sua "semntica"? Posse esse o caso, ento no haveria o menor sentido em criar distines de aparn-cia entre objetos destinados a umn mesma ut ilizatio. No existiria moda, nem estilo, nem qualquer t ipo de val'iao da forma /aparncia dos artefatos que no fosse baseada em ct itrios estritos de operacionalidade. Ao colocnr-se acima

  • dessas divises oriundas do senso comum, Flusser nos per-mite enxergar o problema maior da codificao do mundo.

    As implicaes da concepo flusseriana so imensas. No que tange comunicao no seu sentido lato, ela nos instiga a rejeitar uma separao dicotmica entre representao e referente, entre signo e coisa em si, entre teoria e prtica das estruturas de linguagem. Fabricar e informar so aspec-tos de um mesmo programa, so manifestaes da ao hu-mana nica de tentar impor sentido ao mundo por meio de

    14 cdigos e tcnicas. So, para lanar mo de uma palavra que anda um tanto acuada, arte- da qual deriva todo o complexo de conceitos correlatos como artefato, artifcio e artificial.

    Para Flusser, a base de toda a cultura a tentativa de enganar a natureza por meio da tecnologia, isto , da ma-quinao. Fazemos isso com tamanha engenhosidade que o mundo parece corresponder ao sistema conceitual que im-pingimos a ele. Assim, as regras numricas inventadas pelo ser humano, em abstrato, so capazes de descrever, expli-car e at prever a experincia sensorial. To poderosos so nossos cdigos, alis, que construmos a partir deles ver-ses alternativas da chamada realidade, mundos paralelos, mltiplas experincias do aqui e agora, as quais convencem, comovem e tornam-se "reais" medida que acreditamos cole-tivamente em sua ef