Filosofia Da Caixa Preta

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  • 8/6/2019 Filosofia Da Caixa Preta

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    VILEM FLUSSER

    Filosofia da Caixa Preta

    Ensa io s p ara uma fu tu ra filo so fia d a fo to gra fia

    EDITORA HUCITECS ao P au lo , 1 98 5

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    Direitos autorais 1983 de Vilern Flusser. Titulo do original alernao: FO r e in e P hilo so ph ie d erFotograf ie. Traducao do autor. Direitos de publicacao em lingua portuguesa reservadospela Editora de Humanismo, Ciencia e Tecnologia "Hucitec" Ltda., Rua ComendadorEduardo Saccab, 344 - 04602 - Sao Paulo, Brasil. Tel.: (011) 61-6319.

    Pro je to gra f ico : Estudio Hucitec.

    Capa: Fred Jordan.Fo to da c on tra capa : Sakae Tajima.

    Flusser, Vilern, 1920 -Filosofia da caixa preta - Sao Paulo: Hucitec, 1985.92 p.

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    SUMARIO

    Prefacio a edic;ao brasileiraGlossario para uma futura filosofia da fotografia

    1 A imagem2 A imagem tecnica3 0 aparelho4 0 gesto de fotografar5 A fotografia6 A distribuicao da fotografia7 A recepcao da fotografia8 0 universo fotoqrafico9 A necessidade de uma filosofia da fotografia

    Flusser e a liberdade de pensar, ouFlusser e uma certa gerac;ao 60 Maria Lilia Leao

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    PREFAclO A EDI~AO BRASILEIRA

    o presente ensaio e resumo de algumas conterencias e aulas que pronunciei sobretudo naFranc;a e na Alemanha. A pedido da European Photography, Gtitlingen, foram reunidasneste pequeno livro publicado em alernao em 1983. A reacao do publico (nao apenas dosfotografos, mas sobretudo do interessado em filosofia) foi dividida, porern intensa. Emconsequence a polernica criada, escrevi outro ensaio "Ins Universum der technischenBilder" ( Adentrando 0 universo das imagens tecnicas), publicado em 85, onde procuroampliar e aprofundar as reflexoes aqui apresentadas.

    Estas partem da hip6tese segundo a qual seria possfvel observar duas revolucoesfundamentais na estrutura cultural, tal como se apresenta, de sua origem ate hoje. Aprimeira, que ocorreu aproximadamente em meados do segundo rnilenio a c ., pode sercaptada sob 0 r6tulo "invencao da escrita linear" e inaugura a Hist6ria propria mente dita;a segunda, que ocorre atualmente, pode ser captada sob 0 r6tulo "invencao das imagenstecnicas" e inaugura um modo de ser ainda dificilmente definfvel. A hip6tese admite queoutras revolucoes podem ter ocorrido em passado mais remoto, mas sugere que elas nosescapam.

    Para que se preserve seu carater hipotetico, 0 ensaio nao citara trabalhosprecedentes sobre temas vizinhos, nem contera bibliografia. Espera assim criar atmosferade abertura para campo virgem. Nao obstante, incorporara um breve qlossario de termosexplfcitos e implfcitos no argumento, no intuito de clarear 0 pensamento e provocarcontra-argumentos. As defmicoes no qlossario nao se querem teses para defesas, maship6teses para debates.

    A intencao que move este ensaio e contribuir para um dialoqo filos6fico sobre 0aparelho em funC;ao do qual vive a atualidade, tomando por pretexto 0 tema fotografia.Submeto-o, pois, a apreciacao do publico brasileiro. Fac;a-o com esperance e com receio.Esperanc;a, porque, ao contrario dos demais publicos que me leern, sinto saber para quemestou falando; receio, por desconfiar da possibilidade de nao encontrar reacao crftica. Estepretacio se quer, pois, aceno aos amigos do outro lade do Atlantico e aos crfticos daimprensa. Que me leiam e nao me poupem.

    Percebo que editar este ensaio no contexto brasileiro e empresa aventurosa. Queroagradecer aos que nela mergulharam, sobretudo Maria Lilia teao, por sua coragem eamizade. Que sua iniciativa contribua para 0 dialoqo brasileiro.

    V . F .Sao Paulo, outubro 85

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    GLossARIO PARA UMA FUTURA FILOSOFIA DA FOTOGRAFIA

    Aparelho: brinquedo que sim ula um tipo de pensam ento.Aparelho totoaretico: b rin qu ed o q ue tra du z p en samento co nce itu al em fo to gra fia s.Autome to : aparelho que obedece a program a que se desenvolve ao acaso.Brinquedo: o bje to p ara jo ga r.Codigo: sistema de signos orde nado por re gras.Concei to: e lemen to c on stitu tiv o d e te xto .Conceituar;ao: c ap ac id ad e p ara c ompo r e d ec ifra r te xto s.Consaende histoncs; c on sc ie nc ia d a lin ea rid ad e ( p or e xemp lo , a c au sa lid ad e).Decifrar. revelar 0 s ig nific ad o c on venc io nado de sirnbolos,Entropia: te nd en cia a s itu ac oe s c ad a v ez mais p ro va ve is,Fotografia: im ag em tip o-fo lh eto p ro du zid a e d is trib uid a p or a pa re lh o.Potoqrsto: pe ssoa q ue procura inse rir na im agem inform acoe s im pre vistas pe lo apare lh ofotoqrafico,Funcioneno: pessoa que brinca com aparelho e age em funcao dele.Historia: traducao line arm ente progre ssiva de ide ias em conce itos, ou de im age ns emtextos.Ideia: e lemento c on stitu tiv o d a imag em .Idolatria: incapacidade de de cifrar os significados da ide ta, nao ob stante a capacidade dele -la , p orta nto , a do ra ca o d a imag em .Imagem: superfic ie s ig nific ativ a n a qua l a s id eia s s e in te r-re la cio nam magic amente .Imagem teatics: im ag em p ro du zid a p or a pa re lh o.Imaginar;ao: c ap ac id ad e p ara c ompo r e d ec ifra r im ag en s.Iototmsaio: s i tuacao pouco-provavel.Informar. p ro du zir s itu ac oe s p ou co -p ro va ve is e imprim i-Ia s em o bje to s.Instrumento: sirnulacao de um 6rgao do corpo hum ane que serve ao trabalho.logo: ativ idade que tem fim em si mesm a.Magia: e xis te nc ia n o e sp ac o-te rn po d o e te rn o re to rn o.Maquina: instrum ento no q ual a sirnulacao passou pe lo crivo da te oria.Mem6ria : c ele iro d e in fo rma coes .O b je to : a lg o co ntra 0 qua l esbar ramos .Ob je to cu ltu ra l. ob je to portador de inform acao im pre ssa pe lo h om em .Pos-nlstoris: proce sso circular q ue re traduz te xtos em im age ns.Pre-historia: dom inic de ide ias, ause ncia de con ce itos; ou dom inic de im age ns, ause nciade tex to s.Produr;ao: atividade q ue transporta ob je to da nature za para a cultura.Programa: jogo de com binacao com e leme ntos claros e distintos.Real idade: tu do c on tra 0 q ue e sb arram os no cam inh o a morte, portanto, aquilo que nosinteressa.Redundend. in fo rrn ac ao repe tid a, p orta nto , s itu ac ao p ro va ve l,Rito: c ompo rtamento p r6 prio d a fo rma e xis te nc ia l rn aq lc a.Scanning: movim ento de varredura que decifra um a situacao,Setores primerio e secunaer io : cam pos de ativ idades onde objetos sao produzidos einformados.Seto r tercia r io : c ampo d e a tiv id ad e o n d e in fo rmac oe s s ao p ro du zid as .

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    Significado: meta do signo.Signo: fe n6meno cuja m eta e outro fen6meno .Sfmbolo: s igno convenc ionado consc iente ou in conscientemente.Sintoma: s ig no c au sado pelo s eu s ig nific ad o.Situar;ao: c en a o nd e sa o s ign ifica tiv as as re lac oe s-e ntre -a s-co isa s e na o as co is as -mesmas.Soc iedade indust ria l: s ocie da de o n d e a maioria trab alh a c om rn aq uina s.Sociedade pas- industr ia l. s oc ie da de on de a maioria trab alh a no s eto r te rcia rio.Texto: signos da e scrita em linh as.Textolatr ia: incapacidade de decifrar conceitos nos signos de um texto, nao obstante aca pac ida de de le -los , p ortan to , a do ra ca o a o te xto.Trabalho: ativ idade q ue produz e inform a ob jetos.Traduzir. m udar de um codiqo para outro, portanto, saltar de um universo a outro.Universo: conjunto das cornbinacoes de um codiqo, ou dos significados de um codiqo,Valor. dever-se.Valido: algo que e com o deve ser.

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    1. A IMAGEM

    Imagens sao superffcies que pretendem representar algo. Na maioria dos casos, algo quese encontra la fora no espaco e no tempo. As imagens sao, portanto, resultado do esforcode se abstrair duas das quatro dirnensoes espado-temporais , para que se conservemapenas as dirnensoes do plano. Devem sua origem a capacidade de abstracao especfficaque podemos chamar de i rnaqinacao, No entanto, a imaginaC;ao tem dois aspectos: se deum lado, permite abstrair duas dirnensoes dos fenomenos, de outro permite reconstituir asduas dirnensoes abstrafdas na imagem. Em outros termos: imaginaC;ao e a capacidade decodificar fenornenos de quatro dirnensoes em sfmbolos pianos e decodificar as mensagensassim codificadas. Irnaqinacao e a capacidade de fazer e decifrar imagens.o fator decisivo no deciframento de imagens e tratar-se de pianos. 0 significado daimagem encontra-se na superffcie e pode ser captado por um golpe de vista. No entanto,tal metoda de deciframento produzira apenas 0 significado superficial da imagem. Quemquiser "aprofundar" 0 significado e restituir as dirnensoes abstrafdas, deve permitir a suavista vaguear pela superffcie da imagem. Tal vaguear pela superffcie e chamado scanning.o tracado do scanning segue a estrutura da imagem, mas tarnbern impulsos nofntimo do observador. 0 significado decifrado por este metoda sera, pois, resultado desfntese entre duas "intencionalidades": a do emissor e a do receptor. Imagens nao saoconjuntos de sfmbolos com significados inequfvocos, como 0 sao as cifras: nao sao"denotativas". Imagens oferecem aos seus receptores um espaco interpretativo: sfmbolos"conotativos".

    Ao vaguear pela superffcie, 0 olhar vai estabelecendo relacoes temporais entre oselementos da imagem: um elemento e visto apes 0 outro. 0 vaguear do olhar e circular:tende a voltar para contemplar elementos ja vistos. Assim, 0 "antes" se torna "depois", e 0"depois" se torna 0 "antes". 0 tempo projetado pelo olhar sobre a imagem e 0 eternoretorno. 0 olhar diacroniza a sincronicidade imaginfstica por ciclos.

    Ao circular pela superffcie, 0 olhar tende a voltar sempre para elementos