Fenomenológica existencial do uso de drogas

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    14-Dec-2014
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Abordagem existencial para o tratamento do uso de drogas.

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  • 1. 637 ARTIGO ARTICLE 1 Faculdade de Cincias Humanas e da Sade, Departamento de Psicologia, Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo. Rua Verssimo Glria 165, Sumar. 01251-140 So Paulo SP. msodelli@pucsp.br A abordagem proibicionista em desconstruo: compreenso fenomenolgica existencial do uso de drogas Deconstructing the prohibitionist approach: a phenomenological existential understanding of drug abuse Resumo O presente artigo pretende, por meio do pensamento da fenomenologia existencial, descons-truir o modelo proibicionista ao uso de drogas. Ao compreender o homem como um ser inacabado, sempre entregue ao seu prprio cuidado, o estudo caminhar na direo de demonstrar a incompa-tibilidade dos objetivos proibicionistas com o modo singular de ser do homem. Demonstraremos que a prpria condio existencial do homem que gera o que nomearemos como vulnerabilidade exis-tencial, condio esta impossvel de ser modifica-da. Com efeito, argumentaremos que qualquer abordagem preventiva que tenha como princpio fundamental erradicar o uso de drogas j estaria fadada ao fracasso. Fundamentando-nos ainda neste posicionamento, rejeitaremos a compreen-so proibicionista que o uso de drogas sempre e invariavelmente um comportamento desviante (patologia). Por fim, o estudo aponta para a im-portncia do desenvolvimento de uma nova abor-dagem preventiva que absorva de modo integral a singularidade da condio humana (vulnerabili-dade existencial), rompendo definitivamente com os preceitos proibicionistas, a saber, a abordagem de reduo de danos. Palavras-chave Drogas, Preveno, Fenomeno-logia, Proibicionismo Abstract The present article aims to deconstruct the Prohibitionist Model against drug abuse. Understanding Man as an unfinished being, al-ways left to his own care, the study demonstrates the incompatibility of the Prohibitionist objec-tives with Mans unique way of being. We show that it is the very existential condition of Man that generates what we call existential vulnera-bility, a condition that is impossible to be mod-ified. In fact, we argue that any preventive ap-proach whose fundamental principle is the erad-ication of drug abuse would be prone to failure. Based on this positioning, we reject the Prohibi-tionist view according to which drug abuse is always and invariably a deviant behavior (pa-thology). Finally, the study points to the impor-tance of the development of a new preventive ap-proach that fully absorbs the uniqueness of the human condition (existential vulnerability), def-initely breaking with the prohibitionist precepts, in fact, the Harm Reduction Approach. Key words Drugs, Prevention, Phenomenology, Prohibitionism Marcelo Sodelli 1
  • 2. 638 Sodelli M Introduo Podemos perceber, nos ltimos anos, intensa produo de pesquisas que se dedicaram a estu-dar um dos mais utilizados modelos de preven-o ao uso nocivo de drogas, a saber, intolern-cia e guerra contra as drogas (proibicionismo). Observamos, tambm, que a maioria destas pes-quisas se posicionou criticamente a esta aborda-gem, avaliando-a como ineficaz e irrealista1,2. Esta discusso ganhou dimenso ainda maior com o surgimento no Brasil, no fim da dcada de oiten-ta, da abordagem de reduo de danos e, poste-riormente, da sua aplicao na rea preventiva ao uso de drogas. Pesquisas recentes3,4 apontam que um dos elementos principais que explica o fracasso da abordagem proibicionista justamente o que est na base de seus pressupostos preventivos: a pre-conizao da abstinncia. Embora vasta a literatura sobre este tema, poucos so os estudos que discutem, com base numa fundamentao terica, as limitaes e consequncias da abordagem proibicionista na rea preventiva. Partindo desta compreenso, o presente arti-go pretende, por meio do pensamento da fenome-nologia existencial, realizar um estudo reflexivo sobre a condio humana e o uso de drogas. Ao compreender o homem como um ser inacabado, sempre entregue ao seu prprio cuidado, o estu-do caminhar na direo de demonstrar a incom-patibilidade dos objetivos proibicionistas com o modo singular de ser do homem. Demonstrare-mos que a prpria condio existencial do ho-mem que gera o que nomearemos como vulne-rabilidade existencial, condio esta impossvel de ser modificada. Com efeito, argumentaremos que qualquer abordagem preventiva que tenha como princpio fundamental erradicar o uso de drogas j estaria fadada ao fracasso. Fundamen-tando- nos ainda neste posicionamento, rejeitare-mos a compreenso proibicionista que o uso de drogas sempre e invariavelmente um compor-tamento desviante (patologia). Por fim, apresen-taremos a abordagem de reduo de danos como uma nova alternativa na preveno primria. Ressalvamos que a compreenso fenomeno-lgica existencial apresentada neste artigo se sus-tenta, exclusivamente, na discusso feita por Hei-degger, em sua obra Ser e Tempo5.Utilizaremos, tambm, outros autores que compartilham des-te modo de compreender o existir humano, entre outros: Medard Boss, Benedito Nunes e Zeljko Loparic. O homem na perspectiva fenomenolgica existencial Uma das maiores contribuies do pensamento fenomenolgico existencial a simples, mas im-portante constatao de que no podemos estu-dar e compreender o homem da mesma forma como o fazemos com outros seres e objetos. Po-demos distinguir duas condies fundamentais entre esses entes (tudo que existe, todos os seres vivos e objetos) e o Dasein, termo proposto pelo prprio Heidegger5 para indicar o carter pecu-liar e distinto da existncia humana. Dasein o homem compreendido como o ser-existindo-a. Dasein sempre uma possibilidade na qual se encontra como uma abertura para a experincia. A primeira condio fundamental que o Dasein o nico ser que sabe da sua finitude, de que um dia sua vida vai terminar, de que ele um ser mortal. Desde o princpio, o Dasein est pre-determinado pelo seu fim6. O homem sabe que um dia vir em que ele no mais ser ou exis-tir. Para a fenomenologia existencial, esta dife-rena marca um modo distinto do homem estar no mundo, muito diferente dos outros entes, uma vez que o nico ser que tem de conviver com o seu-ser-para-a-morte e livre para reali-zar uma opo entre viver ou morrer. Desta con-dio ontolgica, nascem dois sentimentos ine-rentes ao Dasein: a angstia e a culpa. A ameaa do no-ser (a morte) a fonte da angstia primordial do Dasein, a qual vivencia-mos por meio do confronto entre a necessidade de realizao das nossas potencialidades e o peri-go de no ser capaz de realiz-las. Cada angstia humana tem um de que, do qual ela tem medo, e um pelo que, pelo qual ela teme. O de que de cada angstia compreende a possibilidade real do Dasein de um dia no estar mais aqui. O pelo que da angstia nos remete prpria condio exis-tencial do Dasein, ou seja, a responsabilidade de zelar e cuidar de sua continuidade no mundo7. A culpa outra importante singularidade do modo de ser do Dasein, a qual no est relacio-nada s proibies ou tabus culturais, mas, fun-damentalmente, conscincia de que o ser do Dasein est sempre em jogo. Conscincia deve ser entendida aqui como o saber junto - com, quer dizer, o Dasein convocado por ele mesmo a dar conta do seu ser (existir)8. Conhecer esta tarefa ter conscincia do apelo do ser, do estar-a- no-mundo. Deste modo, temos sempre que escolher um modo de ser e, como tal, podemos falhar nesta escolha. A culpa ento se vincula conscincia da
  • 3. 639 Cincia & Sade Coletiva, 15(3):637-644, 2010 no-realizao integral das potencialidades, da necessidade imperativa de efetuar certas escolhas, em detrimento de outras. Para melhor entender-mos o sentimento de culpa, vejamos a segunda diferena fundamental entre o Dasein e os ou-tros entes. A segunda condio fundamental que o homem nasce com o seu ser livre. O Dasein essencialmente livre, no sentido de ser capaz de realizar opes e de tomar decises das quais re-sultam os significados de sua existncia. Os ou-tros animais j nascem destinados a serem eles mesmos, pois no tm a possibilidade de ser outra coisa. Por exemplo, uma abelha j nasce abelha, no h outra possibilidade, a no ser, existir como abelha. Por outro lado, o homem nasce possibilidade e no determinao. Na compreenso fenomenolgica existencial, o homem se torna Dasein unicamente na sua re-lao de ser-com-os-outros (humanos). Dasein sempre uma possibilidade, na qual se encontra uma abertura para a experincia. O homem o ser-existindo-a. Entretanto, o Dasein no existe isoladamente sem o mundo que habita que, por sua vez, tam-bm no existe separado do Dasein. Quer dizer, o homem no uma simples coisa no meio de outras coisas, nem uma interioridade fechada dentro de si mesmo. Da a importncia de com-preender a expresso fenomenolgica ser-no-mundo, que aponta primeiramente para um fe-nmeno de unidade e deste modo que devemos compreend-la. Esta expresso deve ser entendi-da como uma estrutura de realizao, visto que a existncia do homem como ser-no-mundo se desenvolve num mundo de realizaes, interes-ses e exploraes, de lutas e fracassos5. Porm, mesmo sendo possibilidade, o ho-mem no vive solto no mundo, sem rumo. Ao contrrio, por sua condio ontolgica de aber-tura, de ter-que-ser alguma coisa, todo o tempo, o homem se entrelaa no mundo, por meio da busca incessante pelo sentido. O sentido da exis-tncia consiste no estar-lanado-no-mundo, como seu destinar-se, seu rumo. E esse sentido da existncia que vai impulsionando e pressio-nando a mundanizao de nosso mundo, toda a ambientao de nosso lugar