Ética ambiental e educação nos novos contextos da ecologia ... · PDF...

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  • Revista Lusfona de Educao

    Revista Lusfona de Educao, 2006, 8, 29-52

    O presente artigo ocupa-se com a apresentao crtica de correntes que animam, nos dias de hoje, a ecologia enquanto pensamento social e educativo. Delas emergem alguns dos problemas do conservacionismo moderno, dos direitos dos animais e da natureza e, genericamente, dos novos contextos da aco tica e da educao. Estes ltimos so informados tanto pela tecnocincia, como pela dinmica social e cultural na origem de fenmenos eco-sociais recentes que, nos dias de hoje, extraem a educao de uma misso estritamente escolar, e a solicitam para contextos cada vez mais reais e variados da vida humana.

    tica ambiental e educao

    nos novos contextos da ecologia

    humana Marina Prieto Afonso Lencastre*

    *Professora da Faculdade de Psicologia e Cincias da Educao da Universidade do Porto. Professora Convidada da Universidade Catlica Portuguesa

    [email protected]

    Palavras-chavetica ambiental, educao ambiental, ecologia humana

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    Revista Lusfona de Educao, 8, 200630

    Revista Lusfona de Educao

    Introduo

    As questes que se levantam actualmente no cruzamento entre educao e ambiente so de ordem dspar e muitas vezes contraditrias. No corao dessa discusso aparecem diversas concepes aparentemente renovadas sobre as rela-es entre a natureza e a cultura que colocam na ordem do dia uma compreenso mais profunda sobre essas relaes. Este fenmeno recente produziu algumas ten-dncias da pedagogia dita ecolgica que ressuscita, de outro modo e para outros contextos, certas formas de naturalismo vigentes em algumas disciplinas cientficas na dcada de 1970, e que foram rejeitadas pelo afinamento da investigao que teve lugar nessas mesmas disciplinas cientficas. Por trs de muitos dos discursos naturo-centrados da actualidade encontra-se um tipo renovado de naturalismo que, no campo educativo, corre o risco de cair em impasses axiolgicos e prticos importantes. Humanos e no humanos so enredados em normativos excessivos que contribuem para extremar posies e para uma confuso generalizada quando se trata de apreender as relaes entre o natural e o cultural. Este tipo de pre-cauo fundamental para evitar a substancialidade das analogias entre o natural e o cultural que conduzem a holismos e a contradies educativas de vria ordem. O presente artigo tem por objectivo analisar algumas destas questes, abordan-do criticamente aspectos do neo-naturalismo contemporneo, nomeadamente na rea delicada dos valores, e mostrando que entre o natural e o cultural se tecem laos interconstituintes que impedem uma viso demasiadamente reduzida dos fenmenos por que se interessa.

    Assim, ao naturocentrismo ou ao sociocentrismo de certos discursos parcelares, ope-se actualmente uma viso integradora que mostra que as duas ordens se re-velam indispensveis para uma compreenso suficientemente esclarecida tanto dos fenmenos ecolgicos, como dos fenmenos educativos prprios ao humano. O presente artigo percorre algumas destas questes, mostrando como se interligam, sem se dispensarem, e como da compreenso dessa interligao que crescem mais amplas possibilidades de conhecimento e de educao em ambiente, desipo-tecados ambos tanto da ideia de um estado ideal da natureza, como de um ideal natural do ser (humano, entre outros) ou de um ideal do saber. As questes contem-porneas da tica ambiental sero, deste modo, compatibilizadas com o requisito de realismo psicolgico mnimo, seguindo a recomendao de O. Flanagan (1991) relativamente s exigncias scio-morais de um mundo progressivamente mais prximo e, paradoxalmente, mais imprevisvel.

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    Lencastre: tica Ambiental e Educao nos novos contextos da Ecologia Humana31

    1. Do romantismo alemo ao preservacionismo norte-americano: a Land Ethic e a Ecologia Profunda

    sobretudo com o romantismo alemo do final do sculo XVIII e incio do sculo XIX que a natureza adquire um estatuto prprio no contexto das cincias fsicas e biolgicas europeias: se at ento a filosofia da natureza se confundira com a cincia da natureza, promovendo desde Descartes um mecanicismo integral da res extensa por oposio res cogitans que a iluminava pela razo geomtrica, com Schelling (1775-1854) e outros depois dele, a filosofia da natureza supunha, com certeza, um conhecimento aprofundado da recente evoluo das cincias da natureza, mas apelava a outro nvel de compreenso, superior a elas, que reflec-tisse a relao de filiao entre o sujeito do entendimento e o mundo do qual se diferencia.

    Segundo a filosofia romntica, a natureza constitui uma totalidade que precede a diviso entre o sujeito e o objecto; ela fonte de energia originria onde se unem os contrrios que tradicionalmente afligiram a filosofia clssica: Deus e o mundo, a necessidade e a liberdade, o consciente e o inconsciente, o sujeito e o objecto, o antes e o depois, o aqui e o acol.

    s crticas de Fichte e sobretudo de Hegel contra a impossibilidade de pensar esta unidade originria, na medida em que todo o pensamento j diferenciao, Schelling argumentava com a ideia de que o filsofo no parte da unidade origin-ria (porque ela desfeita pelo prprio acto de a pensar) mas que a supe como prvia a todo o pensamento, como fundo generativo que no se pode transformar em objecto mas que, no obstante, reconhecido atravs da meditao filosfica. Encontramos j aqui sistematizados certos temas que inspiraro, mais tarde, no s algumas correntes filosficas fundamentais do sculo XX, como a fenomeno-logia husserliana ou a anlise existencial do Da-sein de Heidegger, como tambm algumas ideias que suportaro a corrente mais radical da filosofia da natureza, como a ecologia profunda.

    J Fichte (1762-1814) observara que o princpio da unidade entre o sujeito e o objecto na filosofia da natureza corria o risco de conduzir ao fanatismo inte-lectual e moral, na medida em que tudo estando ligado, e tudo constituindo a sua prpria razo de ser no seio de um sistema que inclui o mal, dificilmente institui a possibilidade de uma aco livremente escolhida e referida ao bem.

    Esta tenso entre a imanncia e a transcendncia, retomada enquanto tema pela dialctica hegeliana da histria, constitui hoje uma das questes que melhor qualifica algumas das insuficincias performativas da ecologia profunda, como ve-remos adiante. Importa reter, no entanto, que os temas do romantismo sentimen-tal do incio do sculo XIX preconizam o retorno a uma unidade perdida com a natureza, de onde brotam as mais autnticas apreciaes sobre a vida, a arte e o ser humano, opondo-se deste modo s correntes classisistas que acentuam a lenta

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    Revista Lusfona de Educao, 8, 200632

    Revista Lusfona de Educao

    estruturao das culturas como um afastamento do caos original, da indiferencia-o entre o ser humano e a besta, que falam da emergncia do esprito sobre os escombros de uma natureza domada pela civilizao. O arqutipo da viso clssica e racionalista da natureza o jardim francs. Este repousa sobre a ideia de que para atingir a verdadeira essncia da natureza, ou melhor a natureza da natureza, necessrio utilizar o artifcio que consiste em geometriz-la. Pois pela matemti-ca, pela utilizao da razo mais abstracta, que atingimos a verdade do real 1.

    As paisagens selvagens, a floresta, o oceano e a montanha, no podem seno inspirar um justo temor ao homem de gosto: a desordem catica que a reina dissimula a realidade2.

    Assim, a arte que para Schelling era o organon da verdade, na medida em que permitia ao ser humano um contacto directo com a subjectividade germinal, tor-na-se para os classisistas a apresentao do puro artifcio enquanto este a con-figurao da verdade da razo, longe da encenao de sentimentos arcaizantes, que contrariam o movimento transcendental da civilizao. Ama-se a natureza domada, polida, em suma, cultivada e, por fim, humanizada3.

    A esttica do sentimento caracterstica do romantismo revolta-se contra esta viso clssica da beleza e considera que a cultura das cincias e das artes corre o risco, como observava Rousseau, de nos fazer perder a autenticidade originria (o estado selvagem) que no est ainda desnaturada 4.

    Como efeito do romantismo filosfico e, mais tarde, do monismo pampsquico da matria contido na biologia de Haeckel (1834-1919) assente, por sua vez, sobre a teoria evolucionista de Darwin (1856), compreende-se que o estado dualista e antropocntrico da natureza sofra um profundo abalo. A vida passa a ilustrar-se como uma mirade de filiaes compondo a prpria genealogia humana; os corpos deixaram de ser mquinas para retomarem o seu estado de organismos, j reco-nhecido por Aristteles como a mais elevada prova da entelecheia da natureza, a sua vocao finalizada para o bem e a felicidade ( eudaimonia).

    A ecologia profunda a corrente filosfica que, nos dias de hoje, integra estes temas com a ecologia ecossistmica de equilbrio, tendo-se desenvolvido sobretu-do nos Estados Unidos paralelamente Land ethic de A. Leopold (1948)5, mas con-tando com importantes contribuies na Noruega, na Gr Bretanha, na Alemanha, na Austrlia e, mais recentemente, em Frana.

    Foi nos Estados Unidos que, em 1872, surgiu o primeiro parque nacional do mundo (o Yellowstone National Park). A concepo destas iniciativas era essen-cialmente preservacionista6, na linha de influncia de pensadores como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau (1854), influenciados, por sua vez, pelo romantismo europeu. Thoreau enfatizou em especial a importncia da natureza selvagem e John Muir, na ltima metade do sculo XIX, advogou insistentemente pela necessidade de preservar os restos intocados da natureza norte-americana face actividade predadora dos herdeiros da mentalidade pioneira. Para Mui