ENTREVISTA COM DARCY RIBEIRO - .programas de entrevista das emissoras de televis£o para contar...

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    Horizontes Antropolgicos, Porto Alegre, ano 3, n. 7, p. 158-200, nov. 1997

    Lus Donisete Benzi Grupioni e Maria Denise Fajardo Grupioni

    http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71831997000300010

    ENTREVISTA COM DARCY RIBEIRO

    Lus Donisete Benzi GrupioniMaria Denise Fajardo GrupioniUniversidade de So Paulo Brasil

    Apresentao

    No dia 17 de fevereiro de 1997, uma tera-feira, morreu, em Braslia, Darcy Ribeiro. A comoo nacional que se seguiu a sua morte trouxe a tona a fi gura singular deste personagem que marcou a histria poltica recente do pas. Intelectual engajado, escritor consagrado, orador cativante, Darcy Ribeiro era adorado por aqueles com quem convivia. Era um daqueles brasileiros que tinha orgulho de sua nacionalidade e que gostava do Brasil. Sempre pronto a enfrentar polmicas, no perdia oportunidade de dizer o que pensava, doesse a quem doesse. Inquieto e perspicaz, ele tinha muita indignao para colocar para fora e muitas idias e projetos para tornar o Brasil melhor e mais justo. Era uma pessoa especial e sabia disso. Fazia questo das reverncias: quando em algum debate ou palestra, o apresentador insinuasse que o prof. Darcy, fi gura notria, dispensava apresentaes, ele interrompia, dizia que no dispensava nada e que adorava ouvir elogios a sua pessoa. Afi rmava que tinha certeza que os receberia aps a morte, mas que apreciava muito desfrut-los j em vida.

    Em 1995, Darcy Ribeiro ocupou as pginas dos principais jornais e dos programas de entrevista das emissoras de televiso para contar a peripcia de ter fugido de um hospital e estar concluindo um livro que explicava e dava sentido ao Brasil. No Senado Federal, defendia um novo projeto para a Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional, entrando em confl ito tanto com a esquerda quanto com a direita. Nesse mesmo ano, recebia o ttulo de Honoris Causa na Universidade de Braslia, da qual foi o idealizador, e tomava parte na inaugurao do Memorial dos Povos Indgenas em Braslia, ocasio em que o Governo do Distrito Federal lanava o prmio Darcy Ribeiro para estudantes das escolas de 1 e 2 graus. Ganhava, assim, de roldo, as pginas dos principais jornais e revistas do pas. Badalado por todos os lados e, com certeza satisfeito com as expresses

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    Entrevista com Darcy Ribeiro

    de admirao e reconhecimento, que pipocavam por todos os lados, ele nos rece-beu em seu gabinete, no Anexo II do Senado Federal, onde o procuramos para que nos desse um depoimento sobre sua vida e sua obra de antroplogo.

    Perguntou o tema da entrevista e a forma como pretendamos realiz-la. De pronto, recusou a proposta de faz-la ali mesmo, ligando um pequeno gravador. Mas gostou da idia de fazer um depoimento sobre suas pesquisas e seus livros de antropologia e props que a entrevista fosse feita em vdeo. Combinamos, ento, para o fi m de semana seguinte, no Rio de Janeiro: se o tempo estivesse bom, ele nos receberia em seu stio, em Maric; se o tem-po no estivesse l essas coisas, seria em seu apartamento, na rua Bolvar, em Copacabana. Com o apoio fi nanceiro do Programa de Ps-Graduao em Antropologia Social da USP, encontramos com Darcy Ribeiro em seu aparta-mento na manh de sbado, do dia 29 de abril. Feitas as apresentaes, ele fi ca aguardando, pacientemente, que montemos os equipamentos para a gravao. Tudo pronto, pede para testar os equipamentos preventivamente: diz ter falado horas a fi o para gravadores desligados e entrevistadores desatenciosos. No era o nosso caso. Com uma pauta na mo e vrias outras perguntas na cabea, damos a ele o sinal para comear. Ele se ajeita na poltrona, faz ar de srio, olha para a cmara como profi ssional acostumado a lidar com a imprensa e diz um monte de palavres. Ri, de forma sapeca, como algum que acaba de fazer uma travessura, e pede que voltemos a fi ta para ver se gravou. Tudo registrado, ele diz que agora srio. Comea a falar e no pra mais. Ento nos lembramos do primeiro pargrafo de seu livro Testemunhos: Todo entrevistador de rdio, jornal ou televiso sabe que nem preciso me fazer pergunta; hasta ligar o gravador e me deixar falar, que falo. Incansavelmente. Para mim, pelo menos.

    Por sorte, durante as quase trs horas de gravao, ele pra, toma gua, pede um caf ou simplesmente descansa: quando conseguimos pedir a ele que aborde alguns temas de nossa pauta, preparada previamente. Sem segui--la, ao p da letra, vai, casualmente, tocando em assuntos que nos interessa-vam. Ele parece no ter tempo, nem pacincia para perguntas: fala fl uente e ininterruptamente, lembrando datas, lugares e personagens. s vezes lana olhares e pergunta se est bom, se o assunto est interessante, para imediata-mente seguir em frente, de forma veloz e cativante.

    Ele mesmo decide quando a entrevista acaba. Insistimos em mais al-gumas perguntas, mas ele diz estar cansado. Pede cpia das fi tas para a Fundao Darcy Ribeiro, que ele est organizando e que dever herdar seus livros e os direitos autorais de sua obra. Promete, ento, uma nova sesso.

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    Horizontes Antropolgicos, Porto Alegre, ano 3, n. 7, p. 158-200, nov. 1997

    Lus Donisete Benzi Grupioni e Maria Denise Fajardo Grupioni

    Desta vez, na sua casa de praia em Maric.Quatro meses depois, no feriado de 7 de setembro, um outro sbado,

    ele nos recebe em Maric. Deitado numa rede, vestido todo de branco, nos oferece uma caipirinha e nos manda caminhar na areia da praia e sentir a brisa do mar. Diz que teremos o dia todo, que j mandou preparar um peixe para o almoo e que devemos aproveitar o dia. Montamos os equipamentos na bi-blioteca da casa, que foi projetada e construda por Niemayer. Darcy senta-se confortavelmente, pega uma bengala e faz pose para falar. Desta vez, permite que faamos mais perguntas. L se vo mais umas trs horas de conversa e gravao at que ele declara: Chegou irmozinho. Acabou. A ele nos chama para mostrar as fotos de sua pesquisa entre os Urubu-Kaapor que estavam sendo selecionadas para o seu novo livro, Dirios ndios, e depois para o al-moo, onde nos conta detalhes de sua fuga da UTI e de seu refgio naquela casa. Final da tarde nos despedimos, agradecendo a oportunidade de ouvi-lo e com a certeza de que quem teve a chance de conhec-lo, no o esquecer.

    Ainda estvamos trabalhando na transcrio deste depoimento, quando Darcy morreu. Sentimos sua morte, como a de algum que perde uma pessoa muita prxima e querida, tamanha foi a intimidade com que ele nos tratou nes-tes dois encontros, em que empreendeu uma viagem no tempo para falar sobre sua carreira de antroplogo, construindo nexos entre sua obra e sua trajetria.

    Uma parte deste depoimento foi publicada na Revista Cadernos de Campo (USP, Vol. 4), outra est disponvel na homepage da ABA, no Boletim n. 27. Aqui o leitor tem o depoimento completo, com estes dois trechos e um outro que permanecia indito. Agradecemos a revista Horizontes Antropolgicos a possibilidade de public-lo na ntegra, propiciando aos leitores a oportunidade de tambm empreenderem uma viagem sobre momentos da histria da an-tropologia brasileira atravs da vida e da obra de um de seus atores e autores ilustres, assim defi nido por Carlos Drumond de Andrade: [] Darcy o cara mais Sete Quedas que eu conheci.

    EntrevistaComo o senhor comeou a se interessar pela antropologia?Darcy Ribeiro: Em 1942, eu conheci um exemplar de A origem da fa-

    mlia, da propriedade privada e do Estado, do Engels. Foi uma coisa incrvel, porque eu era estudante de medicina, e tomava bomba todo ano, tomei trs vezes bomba, porque lia livros como esse do Engels, porque assistia cursos

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    Entrevista com Darcy Ribeiro

    de fi losofi a, porque escrevia romances de trezentas pginas. Eu era estudante de medicina para agradar minha me. A Faculdade de Medicina no me in-teressava, o que me interessava estava fora da Faculdade. Naquela poca do Estado Novo, Chico Campos, o chamado Chico Cincia, importava livros da Argentina e dos alemes que interessavam a ele. Ele importou vrios livros marxistas, entre eles, A origem da famlia. O seu livreiro, Paulo Tederman, sempre reservava um exemplar para mim. Foi assim que eu li um livro sobre teoria da cultura, aos vinte anos. Eu no digo que tenha produzido qualquer efeito no. Mas ser pura coincidncia que esse primeiro livro terico que eu li o livro que fui escrever em 65/ 66 [O processo civilizatrio], que eu publico em 68 no Smithsonian, que a mais importante instituio cientfi ca no campo da antropologia? E claro que essas coisas no so pura coincidncia, havia um olhar voltado para certas questes que permaneceria por muitos anos.

    No perodo que eu estava em Minas Gerais, fazendo de conta que estudava medicina, mas lendo outros textos, eu no sei bem por que, mas consegui um nvel de convivncia e de participao em grupos de conversa de professores de fi losofi a e dos intelectuais mais importantes dali. Em essncia, eu era um jovem inocente, falante e curioso. Eles achavam engraado que eu perguntasse qual-quer coisa. Ento eu me lembro de duas inocncias minhas que so tipolgicas biografi camente. Uma delas que eu quando cheguei l em Belo Horizonte, aos 17 anos, eu cheguei falando contra o poema de Carlos Drummond A pedra no meio do caminho. Meu discurso era que isso no era poesia e que o bom era Olavo Bilac. Um certo dia, eu me encontrei gostando daquilo. E foi incr-vel, porque eu que falava tanto mal disso e mudara de opinio. Ento foi uma virada. E outra virada parecida, foi quando encontrei um livro de divulgao sobre histria da fi losofi a. Eu devorei o livro, encantado por Scrates e Plato, e eu dizia: Porra, em Montes Claros no tem ningum como esse Scrates, nem em Belo Horizonte. Ento eu comecei a procurar homens sbios.

    Naquele tempo, anos quarenta, eu era um jovem meio