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1 Differença d’a Christandade: João Ferreira de Almeida e a controvérsia católico-protestante nas Índias Orientais seiscentistas Luis Henrique Menezes Fernandes * ma análise histórica consistente sobre o surgimento da primeira tradução regular das Escrituras Sagradas cristãs em língua portuguesa, elaborada por João Ferreira A. d’Almeida (c. 1628-1691) nas Índias Orientais holan- desas, ao longo do século XVII, não deve menosprezar o ambiente doutrinário conflituoso em que foi idealizada. 1 O conhecimento factual a respeito dos inúmeros textos de controvérsia religiosa produzidos nesse contexto – 1 A expressão “primeira tradução regular” se justifica na medida em que não é historicamente exato considerar-se a tradução de João Ferreira de Almeida como a primeira tradução “completa” da Bí- blia em língua portuguesa, pois dela foram excluídos os livros deu- terocanônicos do Velho Testamento, não aceitos como divinamente inspirados pelos protestantes. Além disso, Almeida faleceu antes de haver concluído a sua tradução do Antigo Testamento. A finaliza- ção desta coube, primeiramente, ao holandês Jacob op den Akker, em 1694, data em que entregou o manuscrito completo da Bíblia em português ao Presbitério da Igreja Reformada em Batávia. Para mais detalhes, conferir a bibliografia citada em seguida, especial- mente os trabalhos de Jan Swellengrebel e Herculano Alves. REVISTA PORTUGUESA DE HISTÓRIA DO LIVRO E DA EDIÇÃO - ANO XV, n o . 33-34 - 2014, pp. ??. * Doutorando em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), sob a orientação do Prof. Dr. Adone Agnolin. Investigador visitante junto ao Centro de Estudos de História Religiosa da Uni- versidade Católica Portuguesa (CEHR-UCP), com a supervisão do Prof. Dr. Luís Filipe Thomaz. Pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

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Differença da Christandade: João Ferreira de Almeida e a controvérsia católico-protestante nas Índias Orientais seiscentistas

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Differença d’a Christandade: João Ferreira de Almeida

e a controvérsia católico-protestantenas Índias Orientais seiscentistas

Luis Henrique Menezes Fernandes*

ma análise histórica consistente sobre o surgimento da primeira tradução regular das Escrituras Sagradas cristãs em língua portuguesa, elaborada por João Ferreira

A. d’Almeida (c. 1628-1691) nas Índias Orientais holan-desas, ao longo do século XVII, não deve menosprezar o ambiente doutrinário conflituoso em que foi idealizada.1

O conhecimento factual a respeito dos inúmeros textos de controvérsia religiosa produzidos nesse contexto –

1 A expressão “primeira tradução regular” se justifica na medida em que não é historicamente exato considerar-se a tradução de João Ferreira de Almeida como a primeira tradução “completa” da Bí-blia em língua portuguesa, pois dela foram excluídos os livros deu-terocanônicos do Velho Testamento, não aceitos como divinamente inspirados pelos protestantes. Além disso, Almeida faleceu antes de haver concluído a sua tradução do Antigo Testamento. A finaliza-ção desta coube, primeiramente, ao holandês Jacob op den Akker, em 1694, data em que entregou o manuscrito completo da Bíblia em português ao Presbitério da Igreja Reformada em Batávia. Para mais detalhes, conferir a bibliografia citada em seguida, especial-mente os trabalhos de Jan Swellengrebel e Herculano Alves.

REVISTA PORTUGUESA DE HISTÓRIA DO LIVRO E DA EDIÇÃO - ANO XV, no. 33-34 - 2014, pp. ??.

* Doutorando em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), sob a orientação do Prof. Dr. Adone Agnolin. Investigador visitante junto ao Centro de Estudos de História Religiosa da Uni-versidade Católica Portuguesa (CEHR-UCP), com a supervisão do Prof. Dr. Luís Filipe Thomaz. Pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

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alguns da autoria do próprio João Ferreira de Almeida, outros saídos da pena dos clérigos católicos que dele di-vergiam em termos teológicos – tem aumentado conside-ravelmente nas últimas décadas. Diversos pesquisadores têm se dedicado atualmente a uma melhor compreen-são histórica sobre a atividade de Almeida nos domínios neerlandeses orientais, não apenas como tradutor da Bí-blia, mas também como ministro pregador da Igreja Re-formada, teólogo protestante e escritor polemista.2

Desde o trabalho inaugural de António Ribeiro dos Santos sobre as “obras de João Ferreira de Almeida”, publicado pela Academia de Ciências de Lisboa em 1806, tem-se visto na bibliografia especializada referências mais ou menos esparsas sobre os escritos de controvérsia religiosa produzidas naquele contexto, particularmen-te a um curioso “livrinho”, publicado diversas vezes no Oriente, intitulado Differença d’a Christandade.3 Auto-res como Inocêncio Francisco da Silva, De Bruijn, Pedro de Azevedo, Santos Ferreira, Manuel Teixeira, David Lo-pes e Jan Swellengrebel, dentre outros que se dedicaram ao estudo da questão, também conferiram alguma aten-ção a este escrito, sugerindo todos sua relevância para se compreender melhor o fundamento teológico por trás do trabalho de tradução da primeira versão bíblica por-tuguesa.

2 Destacam-se atualmente as contribuições de Herculano Alves e Manuel Cadafaz de Matos, cujos trabalhos serão analisados mais detidamente neste artigo. Além destes, podem ser mencionados, dentre outros, pesquisadores como António Costa Barata, Timóteo Cavaco, Jairo Cavalcante, José Tolentino Mendonça e Manuel Pedro Cardoso.

3 Antonio Ribeiro dos Santos, “Memoria sobre algumas Traducções, e Edições Bíblicas menos vulgares; em Língua Portugueza, especial-mente sobre as Obras de João Ferreira de Almeida”, in: Memorias de Literattura Portugueza, Tomo VII, Lisboa, Academia Real das Ciên-cias, 1806.

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Segundo o testemunho escrito pelo próprio João Fer-reira de Almeida em 1668, como poderemos conferir de-talhadamente mais adiante, teria sido a descoberta deste tratado anônimo castelhano, quando viajava de Batávia a Malaca em 1642, que o levou ao afastamento da Igre-ja Romana e o compeliu não somente ao ministério na Igreja Reformada, mas também ao projeto de tradução das Escrituras em língua vulgar. Por causa disso, decidiu também traduzir o tal “livrinho” em sua língua materna, acrescentando-o com várias notas e advertências de sua autoria, visando divulgá-lo entre os católicos portugue-ses das Índias Orientais e intentando, pelo menos desde 1650, publicá-lo também na Europa.

Todavia, somente há pouco mais de uma década é que houve um significativo avanço no conhecimento sobre o real conteúdo deste escrito, com a publicação da versão fac-similar de uma de suas edições em língua portuguesa, impressa originalmente no ano de 1684 em Batávia (atual Jacarta, na ilha de Java, onde Almeida passou a maior parte de sua vida). A relativamente recente divulgação deste texto, que traz em seu prefácio e dedicatória a maior parte das informações biográficas hoje conhecidas sobre o tradutor português, foi o resultado da atenção a ele conferida pelo professor Manuel Cadafaz de Matos, que o apresentou pioneiramente em Portugal com um in-teressante estudo introdutório.4

4 Manuel Cadafaz de Matos, Uma edição de Batávia em português do ultimo quartel do século XVII. Lisboa: Edições Távola Redonda, 2002.

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Differença d’a Christandade, de 1684 de 1684 (col. do CEHLE).Edição fac-símile publicada por Manuel Cadafaz de Matos

No tocante ao despertar deste bibliógrafo português para a importância histórica dessa edição anticatólica seiscentista, não deixa de ser significativo o fato de o haver publicado após desenvolver um frutífero diálogo intelec-tual com o célebre filósofo francês Paul Ricoeur*, conheci-do por seu declarado protestantismo e por sua dedicação filosófica à problemática da hermenêutica bíblica.5 Inte-ressante notar, no mesmo sentido, que a publicação do tratado anticatólico Differença d’a Christandade por Ma-nuel Cadafaz de Matos foi realizada logo após sua ativi-dade docente junto da Universidade Católica Portuguesa.

O maior desenvolvimento na compreensão histórica da tradução bíblica realizada por João Ferreira de Al-

5 Paul Ricoeur. A hermenêutica bíblica. São Paulo: Edições Loyola, 2006. Segundo Manuel Cadafaz de Matos, o filósofo francês não ape-nas conhecia a obra de João Ferreira de Almeida, como também o admirava.

* Editam-se, adiante, duas das cartas enviadas por M.C.M. ao Prof. Paul Ricoeur, respectivamente datadas de (Reutlingen, Alemanha) 26 de Julho de 1993 e de (Lisboa) 2 de Fevereiro de 2002.

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meida no século XVII ocorreu somente há poucos anos, com a pesquisa desenvolvida por Herculano Alves, cuja tese defendida na Universidade Pontifícia de Salamanca constitui, sem dúvida, a mais completa sistematização de tudo quanto havia sido produzido, até então, a respeito da vida e obra do tradutor calvinista.6 Antes dele, toda-via, o holandês Jan Swellengrebel havia sido o responsá-vel por um grande salto qualitativo nos estudos sobre o assunto, especialmente no seu aspecto biográfico, a par-tir da análise das Atas do Presbitério de Batávia e Mala-ca, que citam abundantemente a atividade de Almeida junto às comunidades protestantes de língua portuguesa no Oriente holandês.7

Ainda assim, é notável que as informações apresenta-das até hoje sobre o tratado Differença d’a Christanda-de têm sido ora incompletas, ora mesmo confusas, ainda que seja consensual, atualmente, a sua função “inspi-radora” no início do trabalho de tradução da Bíblia por João Ferreira de Almeida. Tendo isso em vista, julgamos conveniente sintetizar, em formato de artigo, as princi-pais informações já conhecidas sobre este tratado, bem como apresentar as mais recentes descobertas sobre sua autoria e inúmeras edições, considerando o seu parti- cular significado para a história da literatura de língua portuguesa produzida no além-mar seiscentista.

6 Herculano Alves. A Bíblia de João Ferreira Annes d’Almeida. Lis-boa: Sociedade Bíblica, 2007.

7 Jan L. Swellengrebel, “João Ferreira a d’Almeida, de eerste vertaler van de Bijbel in het Portugees”. De Heerbaan. n. 4/5/6. 1960. Este mesmo texto foi publicado no Brasil, com algumas simplificações em relação ao texto original. Cf. J. L. Swellengrebel; Edgar F. Hallo-ck. A maior dádiva e o mais precioso tesouro: a biografia de João Ferreira de Almeida e a história da primeira Bíblia em português. Rio de Janeiro: JUERP, 2000. Também em português existe, do mes-mo autor, o seguinte artigo: João Ferreira de Almeida: um tradutor português da Bíblia em Java. Boletim da Sociedade de Língua Por-tuguesa, n. 24, 1973, p. 156-166.

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O caráter incerto do conhecimento histórico produ-zido sobre o tratado Differença d’a Christandade – fun-damental, como vimos, à compreensão da atividade de João Ferreira de Almeida nas Índias Orientais – tem suas origens nas considerações que fez a seu respeito o erudito português Antonio Ribeiro dos Santos. Após afirmar que Almeida “compôs várias obras” para além de sua tradu-ção do Velho e do Novo Testamento, escreveu que:

Estando [João Ferreira] em Amsterdam, compôs em holandês uma obra intitulada Artigos ou Pontos de Diferença entre a Igreja Reformada e Católica, que saiu à luz na mesma cidade em 1673 [...]. Escreveu, pri-meiro em castelhano e depois em português, em 1650, outra obra semelhante a esta, que tem por título Dif-ferença da Christandade em que claramente se mani-festa a grande desconformidade entre a verdadeira e antiga doutrina de Deus e a falsa doutrina dos homens. Saiu em Batávia em 1668 e depois em Tranquebar na Oficina da Real Missão Dinamarquesa em 1726.8

Inocêncio Francisco da Silva, por sua vez, em seu Di-cionário Bibliográfico Português, no verbete dedicado a Almeida, tão somente menciona a existência de um tra-tado intitulado Differença d’a Christandade, mas afirma que não ter tido oportunidade de consultá-lo. Portanto, não faz qualquer consideração a respeito de seu conteú-do, e seu foco recai completamente sobre as edições da tradução bíblica de Almeida.9 Quanto a Joaquim Helio-doro da Cunha Rivara, em seu artigo sobre “João Ferrei-ra de Almeida e a sua Traducção Portugueza da Bíblia”,

8 Antonio Ribeiro dos Santos, op. cit., p. 24, nota b.9 Inocêncio Francisco da Silva, Dicionário Bibliográfico Português.

Tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1859, p. 368-372

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não faz qualquer menção a este tratado.10 Percebe-se, assim, que tais autores portugueses se interessaram es-pecialmente por enumerar as diversas edições da tradu-ção bíblica em português publicadas desde fins do século XVII, deixando em segundo plano tanto o aspecto bio-gráfico do seu principal tradutor – por carência de fontes, mais do que por desinteresse –, como a questão da con-trovérsia religiosa relativa ao ambiente histórico em que foi produzida.

O primeiro escrito fundamentalmente biográfico de-dicado a João Ferreira de Almeida foi publicado em fins do século XIX pelo holandês Caspar van Troostenburg de Bruijn, em sua obra intitulada justamente Dicionário Biográfico dos Pregadores nas Índias Orientais.11 Este autor ofereceu, pela primeira vez, não apenas um rela-to linear e mais pormenorizado sobre a vida do tradutor português, mas também algumas considerações mais consistentes sobre o tratado Differença d’a Christanda-de e sua relação com a trajetória de Almeida. Em seus próprios termos:

Ainda jovem, aos 14 anos de idade, [João Ferrei-ra] foi para a Índia. Em 1642, viajou de Batávia para Malaca, e converteu-se à Igreja Reformada a partir da leitura de um livro espanhol intitulado Differença da Christandade. Em 1650, foi traduzido por ele em português e impresso em Batávia em 1668 [...]. A obra acima referida – um escrito polemista contra a Igreja

10 Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara, O Chronista de Tissuary, vol. I, n. 3, Nova Goa: Imprensa Nacional, 1866, p. 75-84.

11 Caspar Adam Laurens van Troostenburg de Bruijn, Biographisch woordenboek van Oost-Indische predikanten. Nijmegen: P. J. Mil-born, 1893. Desconsideramos aqui as poucas linhas dedicadas a João Ferreira de Almeida por Diogo Barbosa Machado (Bibliotheca Lusitana, Tomo II, Lisboa, 1747, p. 657) e Christian Jöcher (Allge-meines Gelehrten Lexicon, Vol. I, Leipzig, 1750), pois o interesse de ambos foi muito mais bibliográfico do que biográfico propriamente dito.

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Católica Romana – foi por ele traduzida em holandês, por ordem da Companhia das Índias Orientais, e im-presso em Amsterdam, em 1673, com o título Onders-cheydt der Christenheydt e com um Apêndice.12

Ainda que muito sucinto, o depoimento de Bruijn foi o mais rigoroso testemunho a respeito do tratado Differen-ça d’a Christandade produzido até o final do século XIX. Essa relativa exatidão nas informações proveio do fato de que este autor teve acesso à referida edição do tratado em holandês, publicada em 1673, em cuja dedicatória e pre-fácio, assinados ambos por João Ferreira de Almeida em 1668, encontra-se a maior parte dessas informações por ele mencionadas. Todavia, não obstante sua superiorida-de em relação aos demais autores em termos de fidelidade nos dados, o testemunho desse autor é ainda incomple-to, na medida em que não referencia as edições em língua portuguesa do tratado posteriores à de 1668, e muito me-nos as presumíveis edições originais em castelhano.

Onderscheydt der Christenheydt (1673)Bodleian de Oxford

12 Id. Ibid, p. 132. Revisão da tradução apresentada por Herculano Al-ves, op. cit., p. 572.

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Alguns dos principais estudiosos portugueses do início do século XX que se preocuparam com o assunto – nome-adamente Santos Ferreira, Pedro de Azevedo e Eduardo Moreira – não acrescentaram qualquer informação nova sobre o tratado Differença d’a Christandade em relação ao depoimento de Bruijn. O mérito desses autores está em outros domínios. Santos Ferreira foi o que dotou o estudo sobre a tradução de Almeida de uma mais ampla perspec-tiva histórica, pois buscou inseri-la na história da Bíblia em Portugal desde fins do século XV a meados do XIX.13 Eduardo Moreira, por sua vez, enriqueceu a biografia de João Ferreira de Almeida com alguns novos dados, que colheu de fontes holandesas.14 Pedro de Azevedo, final-mente, foi o pesquisador que descobriu o verdadeiro local de nascimento do tradutor português – Torre de Tavares, no atual Concelho de Mangualde, norte de Portugal, e não Lisboa, como era geralmente referido –, a partir da desco-berta de uma Carta Apologética escrita em Bengala con-tra o calvinismo de Almeida, por volta de 1670.15

Significativo progresso no conhecimento sobre a lite-ratura de controvérsia religiosa produzida por João Fer-reira Almeida e por seus “desafetos” católicos nas Índias Orientais foi apresentado pelo professor David de Melo

13 Guilherme Luís Santos Ferreira, A Bíblia em Portugal: apontamen-tos para uma monografia (1495-1850). Lisboa: Tipografia de Ferreira de Medeiros, 1906.

14 Eduardo Moreira, O Defensor da Verdade: João Ferreira de Almeida, o primeiro tradutor da Bíblia em Língua Portuguesa. Lisboa: Socie-dade Biblica Britanica e Estrangeira, 1928.

15 Pedro de Azevedo, “O calvinista português Ferreira de Almeida” Boletim da Segunda Classe. vol. XII, fasc. 1. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1918. O raro manuscrito mencionado, importantíssi-mo do ponto de vista da controvérsia religiosa no período, intitu-la-se Carta apologética em defensão da religião católica romana contra João Ferreira de Almeida, predicante da seita calvinista. O único exemplar conhecido encontra-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa), e foi escrito por Hierônimo de Siqueira, agostiniano.

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Lopes, ainda na primeira metade do século XX.16 Este pesquisador apresentou algumas informações novas so-bre o tratado Differença d’a Christandade, especialmen-te por haver podido consultá-lo pessoalmente e analisar o seu conteúdo, citando vários trechos de seu prefácio e dedicatória, ambos de autoria do tradutor português. Além das já referidas edições de 1668, impressa em Ba-távia, e de 1673, publicada em Amsterdam, David Lopes faz menção a uma segunda edição de Batávia, de 1684, e de outras duas impressões, já do século XVIII, feitas pela Missão Luterana Dinamarquesa de Tranquebar, que foi também a primeira a publicar livros do Velho Testamento traduzidos por Almeida. A apreciação de David Lopes so-bre o conteúdo desse tratado, bem como sobre o próprio tradutor português, não é, contudo, muito favorável:

Esta obra é de combate à Igreja Católica. Ferreira de Almeida é mais conhecido pela sua tradução dos livros sagrados, mas a sua propaganda evangélica, no mesmo terreno em que havia dois séculos traba-lhavam os padres católicos, levantou estes contra ele. [...] Para os portugueses, católicos, ele não era só um inimigo da sua fé, mas também um traidor à pátria, que assim desservia, pondo-se ao lado dos seus ini-migos.17

Com David Lopes, portanto, as informações históri-cas e tipográficas sobre o “livrinho” multiplicaram-se e tornaram-se mais sólidas. Como já apontado, na segunda metade do século XX, o holandês Jan Swellengrebel foi o responsável pelo mais substancial incremente no conhe-cimento biográfico sobre João Ferreira de Almeida, a par-tir da análise das atas do presbitério de Batávia e Malaca. Todavia, no tocante ao conhecimento sobre a literatura

16 David Lopes, A expansão da língua portuguesa no Oriente durante os séculos XVI, XVII e XVIII. Porto: Portucalense Editora, 1936.

17 Idem, ibidem., p. 130.

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de controvérsia religiosa do período, e particularmente em relação ao tratado anticatólico em questão, não há qualquer avanço em relação às referidas conclusões de David Lopes.18 O mesmo pode ser dito da biografia de Almeida escrita por Manuel Teixeira.19 Quanto à contri-buição de Manuel Cadafaz de Matos, já citada, está prin-cipalmente em haver tornado acessível ao grande público o tratado Differença d’a Christandade, com a publicação de uma edição fac-símile de segunda edição, impressa em Batávia no ano de 1684.

Finalmente, o aperfeiçoamento da produção intelec-tual sobre a elaboração da primeira tradução da Bíblia em língua portuguesa alcançou o seu ápice com a tese douto-ral de Herculano Alves. Este autor, além de fornecer uma extensiva lista de todas as edições publicadas da tradu-ção bíblica de Almeida, do século XVII ao XXI, fez alguns importantes avanços na sistematização do conhecimen-to sobre a literatura de controvérsia religiosa produzida no período, particularmente em relação ao tratado Diffe-rença d’a Christandade. Até então, eram mencionadas pelos estudiosos apenas as edições em língua portuguesa impressas em Batávia (1668 e 1684) e Tranquebar (1728 e 1773), além da edição holandesa publicada em Amster-dam (1673).20 Herculano Alves parece ter sido o primeiro a analisar o conteúdo de uma rara versão manuscrita do mesmo tratado em língua portuguesa, assinada por João Ferreira de Almeida em Malaca no ano de 1650, descober-ta no Arquivo da Cidade de Amsterdam.21

18 J. L. Swellengrebel, op. cit.19 Manuel Teixeira, João Ferreira de Almeida: Tradutor da Bíblia em

português. Separata do Boletim do Instituto Luís de Camões, n. 3-4, vol. IX. Macau: Imprensa Nacional, 1975, p. 5-18.

20 Ribeiro dos Santos menciona também a existência de uma edição de 1726 impressa em Tranquebar, mas parece ter confundido com a edição de 1728, pois jamais houve outra referência a essa edição, e não foi encontrada em qualquer biblioteca europeia.

21 A descoberta desse raríssimo exemplar, até onde pudemos averi-guar, foi realizada pelo Rev. Dr. Thomas L. Gilmer, da Sociedade Bí-

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Differencia d’a Christandade (1650)Stadsarchief (Amsterdam)

Neste sentido, desde o início do século XIX, com tra-balho inaugural de Antonio Ribeiro dos Santos, houve um importante avanço no conhecimento produzido sobre as diversas edições do tratado Differença d’a Christandade, publicadas nos séculos XVII e XVIII, e sua relação com o início do trabalho de tradução bíblica em português. Da mesma forma, sobretudo a partir das pesquisas de Jan Swellengrebel e Herculano Alves, os dados biográficos sobre Almeida já parecem muito melhor estruturados, embora haja ainda muitos pontos obscuros a serem so-lucionados. Quanto à literatura de controvérsia religiosa produzida nesse contexto, todavia, não nos parece haver merecido uma atenção histórica substancialmente ri-gorosa até o momento. Visando colaborar na superação

blica Trinitariana do Brasil, que o comunicou ao pesquisador Jairo Paes Cavalcante Filho, o qual, por sua vez, o indicou a Herculano Alves. Foi essa específica descoberta documental que possibilitou a descoberta do nome completo do tradutor português, a partir da assinatura que se encontra no manuscrito: “João Ferreira Annes d’Almeida”. Em todos os seus demais escritos, o tradutor português assina simplesmente como “João Ferreira A. d’Almeida”.

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dessa lacuna, apresentaremos algumas informações adi-cionais sobre o tratado polemista aqui em foco, particu-larmente no tocante às suas edições, autoria e significado histórico.

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Foi mencionado até aqui o testemunho de diversos autores, desde o século XIX, sobre a relação de João Fer-reira de Almeida com o tratado protestante Differença d’a Christandade. Parece justo e conveniente, agora, transcrever as palavras do próprio tradutor português sobre o assunto, visando melhor sistematizar o conhe-cimento produzido a este respeito. Já na dedicatória do tratado, destinada a diversas autoridades da Companhia das Índias Orientais Holandesas, Almeida faz referência ao primeiro contato que manteve com este “livrinho”:

me resolvi, finalmente, a comunicar à minha nação, em sua própria língua, como também a todas as de-mais que outra não entendem, o meio e instrumento de que Deus, nosso Senhor, se serviu para a mim me livrar das espessas trevas em que andava, que foi este livrinho em castelhano, que por sua divina graça, ao ano de 1642, foi servido de me deparar [...]. E assim, ao ano de 1650, o traduzi e o acrescentei também com algumas breves notas, advertências e admoestações de não pouca importância.22

Nesse relato, assinado por Almeida em Batávia no ano de 1668, pode-se encontrar claramente a informação de que havia uma versão original do “livrinho em castelha-no”, a partir da qual o jovem português abjurou de sua fé católica de formação e abraçou a doutrina reformada. Além disso, é neste testemunho que pode ser avaliada a

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estima do tradutor pelo conteúdo do tratado, pois o con-siderou “meio e instrumento” de libertação espiritual, para si e para todos os de língua portuguesa. Encontra-se também nessa breve exposição de Almeida a notícia de ele haver traduzido a mesma obra em 1650, com diversas notas de sua autoria, e distribuindo “vários exemplares a diferentes pessoas [...] que destas partes partiram para as de Europa”, com a esperança de vê-lo publicado, o que inclusive pode explicar a existência do exemplar manus-crito no Arquivo de Amsterdam.23

No tocante à existência de uma versão original em castelhano do tratado Differença d’a Christandade, al-guns autores sustentaram a hipótese de que tal versão jamais teria existido de fato. De acordo com essa tese, o próprio tradutor português haveria escrito a obra, e opta-do por ocultar essa informação, visando melhor embasar seus ataques ao catolicismo tridentino. A primeira refe-rência a essa hipótese se encontra já em Antonio Ribeiro dos Santos, quando afirma que Almeida a “escreveu em castelhano e depois em português”.24 Todavia, conforme já sugerido, este autor não possuía em sua época as infor-mações necessárias para saber das referências a uma ver-são original espanhola, pois não conheceu o relato escrito pelo próprio Almeida. Assim, a sua afirmação de que o tradutor português “escreveu” este tratado é muito mais uma conjectura despretensiosa, justificada pelo desco-nhecimento da documentação, do que uma hipótese in-tencional propriamente dita.

23 O título completo dessa edição manuscrita é Differencia d’a Chris-tandade, em que clara e sumariamente se comprehende a grande e notoria disconformidade que ha entre a verdadeira e Antiga doctri-na de Deus que por todo o mundo se ensina ‘na Sancta Igreja Chris-taã, Catolica, Apostolica Reformada; E entre a nova doctrina dos homes, que comummente o dia de hoje se ensina e mantem ‘na Igreja Romana... Em Malaca, 1650. Como já dito, o único exemplar conhe-cido se encontra no Stadsarchief de Amsterdam.

24 Antonio Ribeiro dos Santos, op. cit., p. 24, nota b.

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A tese racionalmente estruturada sobre a inexistên-cia de uma versão original castelhana, não obstante a informação se encontrar claramente na dedicatória da obra em português, aparece somente com o trabalho recente de Herculano Alves. Segundo este autor, criou-se na verdade uma espécie de “mito do achamento” da Differença d’a Christandade em espanhol, que acabou sendo reproduzido acriticamente pelos autores interes-sados no assunto desde o século XIX.25 Nos seus pró-prios termos:

A hipótese mais arriscada, a colocar aqui, é certa-mente a da não existência de tal folheto espanhol. Pois nada nos obriga a levar à letra as expressões que refe-rem a conversão de Almeida. Pensamos, antes, que ele dramatiza o assunto, para lhe dar maior ênfase [...]. Poderíamos, com razão, pensar que foi ele o “inven-tor” do folheto em espanhol, para “justificar” melhor os seus ataques contra a Igreja Católica e dar à sua conversão um carácter de maravilhoso. Almeida não foi certamente o primeiro a utilizar esse género lite-rário, pois o mito de narrativa de achados de livros e manuscritos divinos ou supra-humanos encontram-se em várias religiões e culturas.26

Essa teoria “arriscada”, utilizando o próprio termo do autor, residia basicamente no fato de jamais haver sido identificado qualquer exemplar dessa suposta ver-são castelhana, não obstante os esforços empreendidos nesse sentido por vários pesquisadores, em diversas bi-bliotecas europeias. Os dois principais estudiosos que se

25 Herculano Alves, op. cit., p. 166, nota 290.26 Idem, ibidem, p. 165-166.

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preocuparam mais detidamente com a questão da auto-ria do tratado – Manuel Cadafaz de Matos e Herculano Alves – confessaram haver consultado particularmente a Biblioteca Nacional de Espanha, onde seria mais óbvio encontrar indícios sobre o assunto, sem obter qualquer sucesso na identificação de uma possível obra castelhana com o mesmo título. Ainda assim, não se podia descon-siderar a hipótese de a obra original em castelhano pos-suir outro título, o que dificultaria a sua identificação nos catálogos.

Contudo, a suposição da inexistência da versão cas-telhana do controverso “livrinho” foi descartada com a descoberta de seu original no acervo da Biblioteca Na-cional de Espanha, confirmando assim tanto a literali-dade do relato de Almeida, como a tese levantada por Manuel Cadafaz de Matos de que, se houvesse uma ver-são original, deveria ter sido escrito por algum “reforma-do castelhano”.27 De fato, a edição em língua castelhana do tratado Differença d’a Christandade se encontra em uma obra de controvérsia religiosa mais ampla e de outro título, escrita por um dos mais célebres protestantes es-panhóis do século XVI: Cipriano de Valera (c. 1532-1602), conhecido por sua revisão da primeira tradução completa da Bíblia em castelhano feita sobre os idiomas originais, realizada no século XVI por Casiodoro de Reina (1520-1594).28

27 Manuel Cadafaz de Matos, op. cit., p. LXXX. Essa e outras desco-bertas documentais sobre a literatura de controvérsia religiosa pro-duzida no período podem ser conferidas mais detalhadamente no seguinte artigo: Luis H. M. Fernandes Novas descobertas documen-tais sobre os conflitos religiosos subjacentes à elaboração da primei-ra tradução da Bíblia em língua portuguesa (1642‑1694). Lusitania Sacra, v. 28, 2013, p. 241-254.

28 A Bíblia do Urso, como ficou conhecida a tradução de Casiodoro de Reina, foi publicada pela primeira vez em 1569. Cipriano de Valera conduziu a primeira revisão dessa tradução, publicando-a em 1602 em Amsterdam. Informações adicionais sobre esses autores e obras podem ser encontradas, por exemplo, no clássico trabalho de Mar-celino Menéndez y Pelayo. Historia de los heterodoxos españoles.

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Assim, o conteúdo do tratado posteriormente intitu-lado Differença d’a Christandade em suas edições em lín-gua portuguesa é na verdade um conjunto de três anexos que se encontram na segunda edição da obra de Cipriano de Valera intitulada Dois tratados.29 A primeira edição desse texto foi publicada em Londres no ano de 1588.30 No entanto, nessa primeira edição não se encontram to-dos os três apêndices que posteriormente serão reedita-dos por João Ferreira de Almeida, mas tão somente um deles: o que estabelece uma comparação entre “a santa ceia do Senhor” e a “profana missa do Papa”.31

Madrid: La Editorial Católica, 1978, embora este autor faça um juízo moral negativo desses personagens.

29 Segundo pudemos verificar, o primeiro a descobrir a verdadeira au-toria do tratado Differença d’a Christandade foi o erudito português Ernesto Ferreira, ex-presidente da União dos Adventistas do Sétimo Dia de Portugal. Este pesquisador, desejoso de publicar um estudo sobre a vida de João Ferreira de Almeida na década de 1990, enca-minhou uma correspondência ao Sr. Francesc X. Gelabert, editor da Asociación Publicadora Interamericana, questionando-o sobre a possível autoria desse tratado “que levou Almeida à conversão do catolicismo ao protestantismo”. Em dezembro de 1994, após as de-vidas diligências, recebeu resposta favorável do mesmo Sr. Gelabert, informando-o que havia encontrado o original castelhano do trata-do, graças ao auxílio do Sr. Carlos López Lozano, grande conhece-dor da história e da literatura protestantes. Como o dito Ernesto Ferreira acabou não publicando sua pesquisa sobre o assunto, vindo a falecer em novembro de 2012, julgamos conveniente deixar aqui registrado o seu mérito nessa importante descoberta documental.

30 O título completo da edição é: Dos Tratados: el primero es del papa y de su autoridad colegido de su vida y dotrina, y de lo que los do-tores y concilios antiguos y la misma sagrada escritura enseñan; el segundo es de la missa recopilado de los dotores y concilios y de la sagrada escritura. [Londres]: en casa de Arnoldo Hatfildo, 1588. Encontram-se na Biblioteca Nacional de Espanha dois exemplares dessa edição.

31 Op. cit., p. 467-472.

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Dos Tratados (1599)Biblioteca Nacional de Espanha

É, todavia, na segunda edição da obra Dos Tratados, impressa também em Londres, no ano de 1599, que se en-contram os três anexos que serão posteriormente reuni-dos e transformados em uma obra independente, a qual João Ferreira de Almeida terá acesso em 1642 e traduzirá em língua portuguesa oito anos depois.32 De acordo com o título da obra, essa segunda edição foi realmente “au-mentada pelo mesmo autor”, ou seja, por Cipriano de Va-lera, o que justifica a inclusão de mais dois apêndices em relação à sua primeira edição. Não deixa de ser uma in-teressante coincidência, portanto, o fato de Almeida ter sido inspirado em sua juventude – mesmo que não tivesse consciência disso, pois também parece haver desconheci-

32 Dos tratados, el primero es del papa y de su autoridad, colegido de su vida y dotrina, el segundo es de la missa... Segunda edicion, augmentada por el mismo autor. [Londres]: en casa de Ricardo del Campo, 1599. Exemplar disponível na Biblioteca Nacional de Espa-nha.

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do a autoria do tratado – por um dos principais responsá-veis pela divulgação da Bíblia em língua espanhola.

Ao final do primeiro tratado que compõe a segunda edição dessa obra de Cipriano de Valera, há uma “tabla en la cual se muestra claramente el Papa ser el Anticristo”.33 Posteriormente, já no segundo tratado, encontra-se uma “tabla, a cual muestra la conveniencia, conformidad y unidad que la Santa Cena que Jesús Cristo instituyó tie-ne con la Santa Cena que en las iglesias reformadas se celebra”, bem como a “contrariedad que la profana Misa […] tiene con la Santa Cena que Jesús Cristo ordenó”.34 Por fim, há um terceiro apêndice intitulado “tabla en la cual por algunas antítesis se declara la diferencia y con-trariedad que hay entre la doctrina antigua de Dios […] y la doctrina nueva de los hombres”.35 Como se pode no-tar, a ordem em que esses três apêndices aparecem em sua versão castelhana original é invertida em relação às edições traduzidas por João Ferreira de Almeida. Nestas, aparece sempre primeiro o argumento sobre “a grande desconformidade entre a verdadeira e antiga doutrina de Deus e a falsa e nova dos homens”; em segundo lu-gar, “a notória contrariedade entre a sacrossanta ceia de Cristo, Senhor nosso, e a profana missa do Anticristo”; e, por último apenas, as provas de “quem seja o Anticristo e por que marcas se possa conhecer”.36

Essas diferenças parecem sugerir que esses três apên-dices, originalmente escritos por Cipriano de Valera para ilustrar os pontos básicos do texto Dos Tratados, foram reorganizados num segundo momento para compor uma nova obra, destinada a divulgar os fundamentos da dou-

33 op. cit., p. 353.34 Idem, p. 539.35 Idem, p. 594-610.36 Differença d’a Christandade... Em Nova Batávia, Por Abraham Van

den Eede, 1684.

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trina protestante. Ou seja, quando João Ferreira de Al-meida teve seu primeiro contato com o conteúdo desses apêndices em 1642, eles já deveriam circular nas Índias Orientais em um formato independente, ou seja, como um “livrinho castelhano” de caráter panfletário, e sem in-dicação de sua autoria (caso contrário, ele haveria citado o fato de a obra ser de Cipriano de Valera). Em confir-mação a essa tese, encontra-se no acervo da Biblioteca Nacional de França uma obra intitulada Trois Tables, publicada em 1601, que consiste justamente no conjun-to de apêndices que compõe o tratado Differença d’a Christandade, exatamente na ordem em que aparecem nas edições organizadas por João Ferreira de Almeida. Há também uma segunda edição da obra, impressa em 1618, no acervo da Biblioteca Universitária de Lausanne. Todavia, na primeira dessas edições, os três apêndices se encontram em francês e espanhol, enquanto que na se-gunda, de 1618, estão apenas em francês.37

37 Pelo título dessas edições, é possível confirmar a ordem em que os apêndices se encontram: Trois Tables Espagnol-Françoises. La I, De l’ancienne doctrine de Dieu, e de la nouvelle des hommes. La II, De la S. Cene e de la Messe. La III, De l’Antichrist e de ses marques. A Saumur, par Thomas Portau. 1601. Na segunda edição, é suprimi-da a versão castelhana: Trois Tables. La I de l’ancienne doctrine...A Saumur, par Thomas Portau, 1618. Exemplares da primeira edição também podem ser encontrados na Biblioteca Nacional de Espanha e na Biblioteca Universitária de Lausanne.

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Trois Tables Espagnol-Françoises (1601)Biblioteca Nacional de França

Ademais, não se deve confundir esse conjunto de apêndices, escritos por Cipriano de Valera, com outra obra a ela em muito semelhante, que deve inclusive ter inspirado o autor dos Dos Tratados. Referimo-nos ao Bre-ve tratado de la doctrina antigua de Dios y de la nueva de los hombres, escrita provavelmente pelo protestante espanhol Juan Pérez de Pineda (c. 1500-1567), publica-do pela primeira vez em 1560.38 Esse livro, por sua vez, é uma versão castelhana modificada de outra obra, escrita em latim, pelo luterano alemão Urbanus Rhegius (1489-1541), intitulada Novae doctrinae ad veterem collatio, publicada em 1526. Em suma, o conjunto de apêndices que ficou conhecido posteriormente como Differença d’a Christandade, em suas edições portuguesas, é na verda-de fruto direto da literatura protestante de língua caste-

38 Breve tratado de la doctrina antigua de Dios, y de la nueva de los hombres, útil e necesario para todo fiel cristiano Año de 1560.

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lhana e, além disso, parte integrante de um universo mais amplo de escritos anticatólicos, compostos desde o início do século XVI na esteira da “revolução luterana”.

Finalmente, a partir da descoberta da autoria do tra-tado Differença d’a Christandade, torna-se possível no-tar que esse escrito, a princípio tido simplesmente como um “livrinho castelhano” anônimo, é na verdade uma expressão muito significativa da literatura protestante europeia. Isso pode ser avaliado pelo número de edições que foram impressas dessa obra, nos seus variados for-mados, desde fins do século XVI até meados do século XIX. Além da edição embrionária de 1588 e da primeira edição completa de 1599, em seu formato original de ane-xos da obra Dos Tratados, foi publicada também, como vimos, em francês em 1601 e 1618. Há também uma tra-dução inglesa, publicada em Londres no ano de 1600.39 Em língua portuguesa, além da versão manuscrita de 1650, foi publicada em 1668 e 1684 em Batávia, e em 1728 e 1773 pelos missionários luteranos de Tranquebar.40 Em holandês, além da edição traduzida por João Ferreira de Almeida e impressa em Amsterdam no ano de 1673, iden-tificamos uma versão manuscrita assinada em 1630.41 Foi também reeditada em espanhol em 1851.42

39 Two treatises, the first, of the lives of the Popes and their doctrine; the second of the Masse... London: John Harison, 1600. Exemplar dis-ponível na Biblioteca Nacional de Espanha.

40 Essas duas edições de Tranquebar, a que não tivemos acesso, encon-tram-se na Biblioteca Real da Dinamarca.

41 Onderscheydt der Christenheydt. Amsterdam: Paulus Matthysz, 1673. Encontra-se na Bodleian of Oxford. A versão manuscrita em holandês citada se encontra na Biblioteca Nacional de Espanha. Como parece ter sido feita sobre a edição de 1588 dos Dos Tratados, não contém todos os três anexos que compõe a Differença d’a Chris-tandade. Cf. Cipriano de Valera, Los dos tratados del Papa, i de la Misa, 1630.

42 Los dos tratados del Papa, i de la Misa escritos por Cipriano de Va-lera... Ahora fielmente reimpresos. Año de MDCCCLI. Há referências a uma obra impressa em Ceilão no século XVIII, em tâmil, que se-ria também uma tradução do tratado Differença d’a Christandade, mas não pude confirmar essa hipótese, pois não tive acesso à obra.

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Um último aspecto pontual que deve ser mencionado sobre as edições do tratado Differença d’a Christandade diz respeito às dúvidas relativas à sua primeira impressão em língua portuguesa. Como vimos, desde os primeiros estudos históricos sobre as obras de João Ferreira de Al-meida nas Índias Orientais, há referências ao fato de haver uma primeira edição desse tratado publicada no ano de 1668, em Batávia. Todavia, como nenhum exemplar dessa primeira edição jamais tivesse sido identificado em qual-quer biblioteca, alguns autores sustentaram a hipótese de que essa edição, embora preparada para publicação, jamais tivesse chegado a ser impressa. Manuel Cadafaz de Matos, primeiramente, argumentou que a existência dessa primeira edição seria duvidosa, pois talvez, a essa altura, Batávia ainda não contasse com uma imprensa ti-pográfica.43 Herculano Alves, em seguida, estava conven-cido de que a primeira edição portuguesa impressa em Batávia fosse mesmo a de 1684, publicada somente após a versão em língua holandesa impressa em 1673.44

Essas suposições contrariavam algumas evidências favoráveis à existência de uma primeira edição de Batá-via anterior a 1684. Primeiramente, a dedicatória da obra fora assinada por João Ferreira de Almeida em novem-bro de 1668, sugerindo que a conhecida versão de 1684 fosse tão somente uma reimpressão. A edição de 1684 trazia no frontispício a clara informação de ser ela a “se-gunda impressão, de novo revista e emendada em Nova Batávia”.45 Além disso, a edição de Amsterdam impressa

A referência é Philippus de Melho, Triumph der Waarheid... Colom-bo, 1753.

43 Manuel Cadafaz de Matos, op. cit., p. L.44 Herculano Alves, op. cit., p. 166.45 Differença d’a Christandade... Traduzido e acrescentado tudo, ago-

ra de novo, pelo P. João Ferreira A. d’Almeida, Ministro Pregador d’o S. Evangelho ‘na Índia Ocidental. Em Nova Batávia, Por Abraham

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em 1673 trazia, além da tradução da obra em holandês, um apêndice em língua portuguesa, intitulado “necessá-ria adição à Differença d’a Christandade”, que não faria muito sentido se não houvesse sido já publicada em lín-gua portuguesa anteriormente.46

Seja como for, essas inquietações foram suprimi-das com a descoberta, enfim, de um raríssimo exemplar da primeira edição impressa do tratado Differença d’a Christandade em língua portuguesa, no acervo da Biblio-teca Universitária de Basileia.47 De fato, trata-se de uma edição, no conteúdo, idêntica à segunda impressão de 1684, embora com um formato tipográfico com certas es-pecificidades e com algumas revisões ortográficas. Fica, portanto, confirmada a existência de cinco versões desse tratado em língua portuguesa, editadas nos séculos XVII e XVIII: a versão manuscrita de 1650, as impressões de Batávia de 1668 e 1684 e as edições de Tranquebar publi-cadas em 1728 e 1773. Não se deve menosprezar, portan-to, a importância histórica desse escrito, e sua eficiente instrumentalização nas Índias Orientais para promover a difusão da teologia anticatólica protestante em língua portuguesa.

Van den Eede, 1684. Há um exemplar na Biblioteca Real de Haia. Manuel Cadafaz de Matos possui também um exemplar dessa obra, em seu acervo pessoal.

46 Apêndice ou necessária adição à Differença d’a Christandade em que clara e evidentemente se mostra e averigua como, não a Igre-ja Cristã Reformada, mas a Apostática Romana é a que só muda, transtorna, corrompe e falsifica os fundamentos da doutrina cris-tã... In: Onderscheydt der Christenheydt. Amsterdam: Paulus Mat-thysz, 1673

47 Differença d’a Christandade em que claramente se manifesta a grande desconformidade entre a verdadeira e antiga doutrina de Deus, e a falsa e nova dos homens... Traduzido e acrescentado tudo, agora de novo, pelo P. João Ferreira A. d’Almeida, Ministro Pregador do Santo Evangelho na Índia Oriental. Em Batávia, por Henrique Brando e João Bruyningo, Ano 1668. Biblioteca Universitária de Ba-sileia.

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Differença d’a Christandade (1668)Biblioteca Universitária de Basileia

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Conforme sugerimos inicialmente, a compreensão do significado histórico da primeira tradução regular e lite-ral das Escrituras Sagradas cristãs em língua portuguesa não pode minimizar o ambiente doutrinário conflituoso em que foi produzida. Os escritos anticatólicos escritos por Cipriano de Valera em fins do século XVI estão na ori-gem da atividade de João Ferreira de Almeida como tra-dutor da Bíblia: este afirma que, logo após ler o “livrinho castelhano”, “sem a menor dilação do mundo” e “desde o mesmo instante”, começou “a traduzir de castelhano em português algumas epístolas e evangelhos dos santos apóstolos e evangelistas”.48

48 Differença d’a Christandade... Batávia, 1668. Dedicatória, p. 2.

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Assim, a atividade do “herege espanhol” Cipriano de Valera esteve na origem da tradução bíblica portuguesa, pelo em dois sentidos: ofereceu tanto as primeiras ba-ses teológicas para justificá-la, contra as determinações católicas emanadas do Concílio de Trento (1545-1563), como as primeiras bases textuais, pois João Ferreira afir-mar haver iniciado o seu trabalho de tradução justamen-te a partir da língua espanhola. Certamente, essa versão castelhana era a edição de Casiodoro de Reina e Cipriano de Valera, pois fora impressa em Amsterdam, gozava de grande circulação no período e era considerada, segundo Almeida, uma das “melhores e mais conformes ao sacro texto original”.49

Assim, a tradução bíblica portuguesa iniciada por João Ferreira de Almeida não pode ser compreendida histori-camente de forma descolada de sua atividade como escri-tor polemista, à semelhança de Cipriano de Valera em sua revisão e divulgação da Bíblia em castelhano. Além disso, o caráter protestante comum dessas traduções está jus-tamente no fato de haverem sido projetadas a partir de uma concepção doutrinária anticatólica, que rejeitava a superioridade tradução latina da vulgata editio, exaltava a literalidade dos textos originais e intentava aproveitar ao máximo as vantagens da tipografia moderna. Assim, insurgiam-se conscientemente contra as determinações doutrinárias tridentinas, que havia estabelecido claros limites às traduções da Bíblia em língua vulgar, visando “refrear os impressores, que já sem freio, isto é, entenden-do lhes é lícito quanto lhes dá na vontade, e se atrevem, sem licença dos Superiores Eclesiásticos, a imprimir os livros da Sagrada Escritura”.50

49 Idem. Dedicatória. p. 3.50 O sacrosanto, e ecumenico Concilio de Trento em latim e portu-

guez... Tomo I. Lisboa: na Off. de Francisco Luiz Ameno, 1781. Ses-são IV. Decreto da edição e uso dos livros sagrados, p. 61. Biblioteca Nacional de Portugal.

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O objetivo principal de João Ferreira de Almeida, des-de 1642, quando entrou em contato com o “livrinho” de Cipriano de Valera, era divulgar as Escrituras Sagradas em língua portuguesa, especialmente aos católicos roma-nos de sua nação. A sua primeira tentativa de imprimir sua tradução ocorreu já em 1645, quando comunicou aos ministros da Igreja Reformada de Malaca haver concluí-do uma tradução do Novo Testamento, feita com base na versão latina do calvinista Teodoro de Beza (1519-1605), utilizando-se também das versões protestantes espanho-la, francesa e italiana.51 O seu propósito de fornecer uma edição completa das Escrituras Sagradas à nação portu-guesa pode ser claramente averiguado em suas próprias palavras, quando comunica às autoridades holandesas o seu intento principal:

Assim como aquele benigno Pai das Luzes, de quem procede todo o bem, por sua infinita misericór-dia, logo nos primeiros anos de minha mocidade, foi servido trazer-me ao saudável conhecimento de sua divina verdade, no mesmo instante se serviu logo de plantar um ardente e inextinguível zelo e desejo de, conforme ao talento que de sua paternal e liberal mão recebera, o comunicar também aos que ainda de meus irmãos, segundo a carne, ficavam abismados no labi-rinto daquela tão mortífera cegueira, de que este Se-nhor a mim tão benignamente me livrara [...]. Para o

51 Differença d’a Christandade. Batávia, 1668. Dedicatória, p. 2-3. En-tre 1642 e 1644 – a partir dos quatorze anos de idade, portanto –, Almeida traduziu alguns trechos do Novo Testamento a partir da versão castelhana. Entre 1644 e 1645, finalizou a tradução completa do Novo Testamento, com base na tradução latina de Beza. Poste-riormente, passou a revisar essa versão com base no texto grego, (provavelmente utilizando o chamado Textus Receptus). Sobre esse assunto, cf. Jairo Paes Cavalcante, O método de tradução de João Ferreira de Almeida: O caso do Evangelho de Mateus. Dissertação de Mestrado. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, 2013.

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que, sem a menor dilação do mundo, desde o mesmo instante, comecei em Malaca a traduzir de castelhano em português algumas epístolas e evangelhos...52

Todavia, após ver frustrada a sua primeira tentativa de publicar o Novo Testamento em língua portuguesa, pas-sou, em anos subsequentes, a revisá-la com base no texto original grego, tendo-a visto impressa somente em 1681, em Amsterdam.53 De qualquer modo, somente em 1650, após fracassar em seu projeto inicial de publicar sua ver-são do Novo Testamento concluída em 1645, é que João Ferreira de Almeida decide traduzir em língua portugue-sa o tratado Differença d’a Christandade. O objetivo de Almeida na tradução do escrito polemista de Cipriano de Valera é justamente oferecer à nação portuguesa – “aos seus irmãos segundo a carne” – um paliativo, ou seja, uma espécie de “evangelho provisório”, para suprir a carência de Portugal nesse quesito. Isso é evidente quando João Ferreira de Almeida, em sua dedicatória, após afirmar desgostosamente que sua tradução ainda não havia sido publicada, afirma o seguinte:

Porém, vendo que por aqui pouco ou nada apro-veitava para tão depressa avançar e conseguir o fim que, com tanto fervor e ânsia, pretendia, me resolvi, finalmente, a comunicar à minha nação, em sua pró-pria língua, como também a todas as demais que ou-tra não entendem, o meio e instrumento de que Deus,

52 Differença d’a Christandade... Batávia, 1668, Dedicatória, p. 1.53 O Novo Testamento, isto he, Todos os Sacro Santos Livros e Escritos

Evangelicos e Apostolicos do Novo Concerto de nosso Fiel Senhor Salvador e Redemptor IESU CHRISTO. Agora traduzido en Portu-gues Pelo Padre João Ferreira A d’Almeida, Ministro Pregador do Sancto Evangelho. Em Amsterdam: Por viuva de J. V. Someren. Anno 1681. Para aprofundar o conhecimento sobre essa edição, e sobre as subsequentes, conferir a tese de Herculano Alves.

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nosso Senhor, se serviu para a mim me livrar das es-pessas trevas em que andava, que foi este livrinho em castelhano...54

Pode-se notar, por essas declarações, que o alvo prin-cipal de João Ferreira de Almeida em seu projeto de tra-dução bíblica, bem como em sua atividade polemista, são os católicos da nação portuguesa. Evidentemente, há também um interesse explícito em beneficiar todos “os demais que outra [língua] não entendem” senão a por-tuguesa – ou seja, os falantes de língua portuguesa das Índias Orientais –, mas o propósito central foi, desde o princípio, fornecer a Portugal sua primeira tradução com-pleta da Bíblia. Isso fica claro também com o destinatá-rio explícito de sua tradução do tratado Differença d’a Christandade: “A todos os senhores católicos romanos da nação portuguesa, de qualquer estado, qualidade e con-dição que sejam; com todos os demais que da língua por-tuguesa usam”.55 Esse destinatário mais abrangente – ou seja, que dissocia a língua da nação – aparece somente na edição de 1668, pois na versão manuscrita de 1650 se diz somente que “quis ele também comunicar [o tratado] à sua nação, dando-lho em sua própria língua materna”.56 Portanto, o interesse por todos os de língua portuguesa, além do próprio Reino de Portugal, surge gradual e pos-teriormente, talvez como uma estratégia consciente para obter o favor das autoridades holandesas na publicação de suas obras.

54 Differença d’a Christandade... Batávia, 1668, Dedicatória, p. 5.55 Op. cit.56 Differencia d’a Christandade... [Manuscrito]. Malaca, 1650. Adver-

tência, p. 1.

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Primeira edição do Novo Testamento (1681)Biblioteca Nacional de Portugal

Finalmente, parece-nos conveniente finalizar essa contribuição com mais uma declaração do próprio João Ferreira de Almeida, escrita no prefácio do tratado Diffe-rença d’a Christandade, do que tratamos detidamente neste artigo, visando reafirmar nossa hipótese central: a de que o projeto de tradução da Bíblia em língua portu-guesa, realizada por João Ferreira de Almeida nas Índias Orientais holandesas, não deve ser compreendida como um fato histórico isolado, mas sim em sua relação estru-tural com embates doutrinários que lhe são próprios, ou seja, com as lutas católico-protestantes modernas pela definição da ortodoxia cristã. Para o tradutor português, portanto, o seu trabalho de tradução da Bíblia era um ser-viço espiritual dirigido à nação portuguesa, visando expor:

[os] muitos erros e enganos que, até agora, sem nis-so atentardes, todos andais metidos e enredados, sem

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deles nunca, até o presente, vos poderdes desembara-çar, por causa da ignorante devoção com que vossos doutores vos trazem cegos, embebidos, enguiçados e ainda arrastados. Não vos permitindo, em manei-ra nenhuma, a tão proveitosa, saudável e totalmen-te necessária lição da Sagrada Escritura em língua vulgar, em que bem, clara e distintamente, para vossa própria salvação, a possais entender, e pintando-vo-la tão cheia de faltas, tão feia, tão monstruosa, tão horrível, tão medonhenta e tão perigosa, que nem ain-da para ela quereis olhar [...]. E, na verdade, tudo isto mui contrário ao que Deus, nosso Senhor, nela também a todos, em consciência, nos obriga, convém a saber: que se é que deveras vos quereis salvar, todos também de contínuo a deveis ler, meditar e esquadrinhar, e em tudo a ela vos sujeitar.57

57 Differença d’a Christandade... Batávia, 1668. Prefácio. Página sem numeração.