DADOS DE COPYRIGHT · PDF file— Tinha sido empurrada para dentro da fogueira, ......

of 400 /400

Embed Size (px)

Transcript of DADOS DE COPYRIGHT · PDF file— Tinha sido empurrada para dentro da fogueira, ......

  • DADOS DE COPYRIGHT

    Sobre a obra:

    A presente obra disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversosparceiros, com o objetivo de oferecer contedo para uso parcial em pesquisas eestudos acadmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fimexclusivo de compra futura.

    expressamente proibida e totalmente repudavel a venda, aluguel, ouquaisquer uso comercial do presente contedo

    Sobre ns:

    O Le Livros e seus parceiros disponibilizam contedo de dominio publico epropriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que oconhecimento e a educao devem ser acessveis e livres a toda e qualquerpessoa. Voc pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.Net ou emqualquer um dos sites parceiros apresentados neste link.

    Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e no mais lutandopor dinheiro e poder, ento nossa sociedade poder enfim evoluir a um novo

    nvel.

    http://lelivros.nethttp://lelivros.nethttp://lelivros.nethttp://lelivros.net/parceiros/

  • 1

    UMA COISA M

    Depois da morte do Fazendeiro Pederneira de Vale-do-Meio, a viva permaneceu nacasa da quinta. O filho fora para a vida do mar e a filha casara com um mercador de Foz-do-Val, de modo que vivia sozinha na Quinta do Carvalho. As gentes diziam que ela tinha sidouma espcie de pessoa importante l na terra estrangeira de onde viera e o certo que o magoguion costumava parar na Quinta do Carvalho para a ver. Se bem que isso no significavagrande coisa, dado que guion visitava todo o tipo de z-ningum.

    O nome dela era em lngua estrangeira, mas Pederneira chamara-lhe Goha, que onome dado a uma pequena aranha tecedeira branca de Gont. O nome ficava-lhe a matar, j queera branca de pele, pequena e uma boa tecel tanto de l de cabra como de ovelha. E agoraera, pois, a viva de Pederneira, senhora de um rebanho de carneiros e da respectivapastagem, mais quatro campos de lavoura, um pomar de pereiras, duas casas pequenas para osrendeiros, a velha casa da quinta, em pedra, debaixo dos carvalhos e o cemitrio da famlia dooutro lado da colina, onde jazia Pederneira, terra sua terra regressada.

    No geral, sempre vivi perto de lpides tumulares dizia ela filha.

  • me, venha para a vila viver conosco instava Ma, a filha. Mas a vivarecusava-se a deixar a sua solido.

    Talvez mais tarde, quando vierem os bebs e precisares de uma ajuda redarguiaela, olhando com prazer para a sua bela filha de olhos cinzentos. Mas agora no. Noprecisas de mim. E eu gosto de aqui estar.

    Depois de Ma ter voltado para junto do seu jovem marido, a viva fechou a porta edeixou-se ficar de p sobre o cho lajeado, na cozinha da casa da quinta. J estava escuro,mas ela no acendeu a lmpada, recordando o marido a faz-lo, as mos dele, a fasca, o rostoescuro e atento iluminado pelo brilho crescente. A casa estava silenciosa.

    Costumava viver numa casa silenciosa, sozinha cogitou. Voltarei a faz-lo.

    E acendeu a lmpada.

    Ao final de uma tarde, no princpio do tempo quente, a velha amiga da viva, Cotovia,veio da aldeia, apressando o passo ao longo da vereda poeirenta.

  • Goha chamou ela, ao ver a amiga a arrancar ervas daninhas na courela dosfeijes. Goha, houve uma coisa m. Uma coisa muito m. Podes vir comigo?

    Claro prontificou-se a viva. Mas que coisa m foi essa?

    Cotovia susteve a respirao. Era uma mulher de meia-idade, forte e de feiesvulgares, cujo nome j no se adaptava ao corpo. Porm, em tempos, fora uma menina bonita eesguia, que tomara amizade por Goha, sem dar ateno aos aldeos que teciam bisbilhoticesem volta daquela bruxa karguiana de cara branca que Pederneira trouxera para casa. E amigastinham ficado desde ento.

    Uma criana queimada informou ela.

    Uma criana de quem?

    De uns vagabundos.

  • Goha foi fechar a porta de casa e ambas meteram ps vereda, com Cotovia a falarenquanto caminhavam. Suava e faltava-lhe o flego. Minsculas sementes das ervas altas queladeavam a vereda agarravam-se s bochechas e testa e ela ia varrendo-as com a mo aomesmo tempo que falava.

    Tm estado acampados durante todo o ms nos prados junto ao rio. H um homem,que se diz latoeiro mas um ladro, e uma mulher que vive com ele. E outro homem, maisnovo, que anda volta deles a maior parte do tempo. No fazem nada, nenhum deles. E sroubar e mendigar e viver custa da mulher. Havia rapazes l do lado da foz que lhes traziamcoisas das herdades para se aproveitarem dela. Sabes como agora, esse gnero de coisa. Eh bandos pelas estradas que se chegam s quintas. Se eu fosse a ti, nos dias que correm,fechava a minha porta a cadeado. E ento esse, o tal mais novo, aparece na aldeia, estava euc fora em frente da nossa casa, e vai e diz-me: A criana no est bem. Eu c mal vira quetinham uma criana com eles, uma coisinha de nada e que se escapava da vista to depressaque uma pessoa nem tinha a certeza de ter visto alguma coisa. De maneira que eu perguntei:No est bem? Alguma febre? E o homem diz: Feriu-se, a acender a fogueira e, antes queeu me tivesse decidido a ir com ele ou no, j no estava ali. Fora-se. E quando fui at ao pdo rio, os outros dois tambm se tinham ido. Nem vivalma. Ningum. Tambm tinham levadoos trapos e a tralha. S tinha ficado a fogueira do acampamento, ainda a fumegar, e mesmo aop... em parte l dentro... no cho... Cotovia parou de falar durante vrias passadas. Olhava adireito em frente, no para Goha. Depois acrescentou:

    Nem sequer lhe tinham posto uma coberta por cima. Continuou a caminhar.

    Tinha sido empurrada para dentro da fogueira, quando ainda estava acesa voltouela a quebrar o silncio mais adiante. Engoliu em seco, sacudindo as sementes quecontinuavam a pegar-se-lhe cara encalorada. Poderia pensar que tinha cado mas, seestivesse acordada, com certeza que havia de tentar salvar-se. Bateram-lhe e pensaram que atinham morto, o que eu penso, e quiseram esconder o que lhe tinham feito, de maneira que...

  • Uma vez mais se interrompeu, mais uma vez prosseguiu.

    Talvez no tenha sido ele. Talvez a tenha puxado para fora. Ao fim e ao cabo,sempre veio procura de ajuda. Deve ter sido o pai. No sei. E tambm que interessa? Quem que vai querer saber? Quem que se vai importar? E quem vai tomar conta da criana?Porque fazemos ns as coisas que fazemos?

    Em voz baixa, Goha perguntou:

    Escapar com vida?

    possvel respondeu Cotovia. bem possvel que escape.

    Pouco depois, ao aproximarem-se da aldeia, Cotovia acrescentou ainda:

    Nem sei porque vim ter contigo. A Hera est l. No h nada a fazer.

  • Eu podia ir at Foz-do-Val, chamar Faia.

    Ele tambm no podia fazer nada. Est para l... para l de qualquer ajuda.Mantive-a quente. A Hera deu-lhe uma poo e um sortilgio de dormir. Levei-a nos braospara casa. Deve ter seis ou sete anos, mas no pesa mais que uma criana de dois. No chegoubem a acordar. Mas faz uma espcie de arquejar... Eu sei que no h nada que tu possas fazer.Mas queria ter-te ao p de mim.

    E eu quero ir afirmou Goha. Porm, antes de entrar em casa de Cotovia, fechouos olhos e susteve por momentos a respirao, temendo o que a esperava.

    Os filhos de Cotovia tinham sido mandados sair e a casa estava silenciosa. A crianajazia inconsciente na cama de Cotovia. A bruxa da aldeia, Hera, tinha espalhado um unguentode aveleira-das-bruxas, que o nome que se d em Gont hamamlis, e de cura-tudo nasqueimaduras menores, mas no tocara no lado direito do rosto e da cabea nem na mo direita,zonas que tinham ficado carbonizadas at ao osso. Desenhara a runa Pirr por cima da cama eficara-se por a.

    Achas que podes fazer alguma coisa? perguntou Cotovia num sussurro.

    Goha olhava para baixo, para a criana queimada. As suas mos estavam firmes.

  • Abanou a cabea.

    Mas tu aprendeste a curar, l em cima, na montanha, no aprendeste?

    Dor e vergonha e raiva ressoavam na voz de Cotovia, ansiando por alvio.

    Nem mesmo guion podia curar isto retorquiu a viva.

    Cotovia voltou costas, mordendo os lbios, e ps-se a chorar. Goha passou-lhe o braopelos ombros, afagou-lhe o cabelo grisalho. Agarraram-se uma outra.

    A bruxa Hera veio da cozinha, franzindo o cenho ao deparar com Goha. Embora aviva no lanasse sortilgios nem tecesse encantamentos, dizia-se que, ao vir para Gont,vivera em Re Albi como discpula do mago, e tambm que conhecia o Arquimago de Roke,pelo que decerto teria estranhos e inquietantes poderes. Ciosa das suas prerrogativas, a bruxafoi at cama e atarefou-se junto dela, fazendo um montinho de qualquer coisa dentro de umprato e deitando-lhe fogo, o que produziu fumo e um cheiro fedorento, enquanto ela iarepetindo incessantemente um sortilgio de curar. O fumo repugnante das ervas fez tossir acriana queimada que se soergueu um pouco, encolhendo-se e estremecendo. E logo comeoua fazer um rudo arquejante, num arfar rpido, curto e rangente. O seu nico olho parecia fitarGoha.

  • A viva deu um passo em frente e tomou nas suas a mo esquerda da criana. Falou nasua prpria lngua, dizendo:

    Servi-os e deixei-os. No vou deixar que te levem.

    A criana olhou para ela, ou talvez para nada, tentando respirar, e de novo tentandorespirar, e uma vez ainda tentando respirar.

  • 2

    A IDA AT AO NINHO DO FALCO

    Foi mais de um ano depois, nos quentes e amplos dias a seguir Longa Dana, queum mensageiro veio descendo a estrada que vem do Norte at Vale-do-Meio, perguntandopela viva Goha. As gentes da aldeia indicaram-lhe o caminho e ele chegou Quinta doCarvalho ao fim do dia. Era um homem de rosto afilado e olhos vivos. Olhou para Goha epara as ovelhas no redil por detrs dela e disse:

    Belos borregos. O Mago de Re Albi manda-te chamar.

    E foi a ti que mandou? inquiriu Goha, entre incrdula e divertida. guion,sempre que precisava dela, tinha melhores e mais