Conversando Com Lukcs

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Conversando com Lukács. Conjunto de entrevistas realizadas com o filósofo húngaro pouco antes de seu falecimento. O volume também é completado com entrevistas dos anos 1960.Marx, Filosofia, Ontologia, Manipulação, Marxismo.

Transcript of Conversando Com Lukcs

  • Srie

    RUMOS DA CULTURA MODERNA Volume 32

    Leo Kofler - Wolfgang Abendroth Hans Heinz. Holz

    CONVERSANDO COM LUKACS

    Traduo de OISEH VIANNA KONDER

    Paz e Terra

  • f

    Titulo do orJginal alemo: GF.SPRACHE MIT GEORG LUKACS

    Rowohlt Verlag GmbH, Relnbek bel Hamburg, 1967

    Montagem da. capa: EuNlcE DUARTE

    Diagramao e superviso grfica.: RoBERTO PONTUAL

    Distribuidora. exclusiva: EDrrRA ClVILIZAo BMS1LEIRA S, A.

    Rua 7 de Setembro, 97 RIO DE JANEIRO - GB - BMSIL

    Direitos para a lngua portugusa adqulrldos pela EDITORA PAZ E TERRA S, A.

    Av. Rio Branco, 166 - 129 andar - s/ 1222 RIO DE JANEIRO

    que se reserva a propriedade desta tradiio,

    1969

    Impresso no Brasil Printed in Brasil

    -

    NOTA PRELIMINAR DA EDIO BRASILEIRA

    Do PENSADOR hn8m-,._Georg Lukcs - que muitos consideraram o maior filsofo marxista da-poca presente - j foram lanados no Brasil diversos livros. A Editra Civilizao Brasileira publicou Ensaios Sbre Literatura (j em segunda edio), Introduo a Uma Esttica Marxista e Marxismo eTeoria da Literatura. Outras editras publicaram Existencialismoou Marxismo? e Realismo Crtico Hoje. Alm disso, foram vendidos no Brasil numerosos exemplares da primeira parte _da monumental Esttica de Lukcs na edio em castelhano.

    Lukcs j , portanto, bem conhecido do pblico leitor brasileiro. O presente livro do mestre hngaro, contudo, apresenta caractersticas especiais, pois se compe de entrevistas, textos de circunstncia. Se esta forma carece de uma elaborao sistemti.a mais desenvolvida, ela .tem, no entanto, a van- tagem de trazer aos leitores a filosofia lukacsiana colhida ao vivo, em movimento gil e variado do pensamento, tratando de

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    problemas que vo desde a sociologia da moda (a minissaia) at a crise do socialismo, a manipulao e as modalidades sofisticadas da alienao no capitalismo contemporneo.

    O original das conversas gravadas que Lukcs teve em setembro de 1966 com os professres alemes Wolfgang Abendroth, Hans Hinz Ho1z e Leo Kofler saiu em livro na Alemanha Ocidental (Hamburgo), A sse texto tie GespTii.che mit Georg Lukdcs (que foi traduzido da ediO italiana), resolvemos acrescentar na edio brasileira mais trs entrevistas concedidas nos ltimos anos por Lukcs: 1) uma entrevista eminentemente terico-poltica concedida a Istvn Simon e Erwin Gyertyan, publicada originalmente pela revista hngara Kortars em maio de 1968 e republicada em Rinascita; 2) outra entrevista concedida ao escritor tcheco Antonin Liehm, publicada no princpio de 1964 pelo semanrio Literarny Noviny e republicada em La Nouvelle Critique; 3) outra, finalmente, concedida a Yvette Bir e Szilard Ujhelf, publicada em Film Kultura e republicada na revista italiana Cinema Nuovo em seus nmeros correspondentes a dezembro de 1968 e a janeiro de 1969.

    Agradeo a Carlos Nelson Coutinho pela permisso que me deu de incluir no presente volume a traduo da segunda entrevista acrescentada edio brasileira e a Leandro Konder pela permisso de utilizar aqui a traduo que fz do texto italiano da entrevista originalmente concedida a Kortars.

    G, V. K.

    CONVERSAS COM HOLZ, KOFLER E ABENDROTH

  • . .

    PRIMEIRA CONVERSA Georg Lukcs

    Hans Heinz Holz Ser e Conscincia

    HoLz - Senhor Lukcs, na sua Esttica esto presentes alguns pressupostos ontolgicos que nem sempre so tratados explicitamente. Sabemos que o senhor prepara uma ontologi.j sbre bases marxistas e no queremos antecipar sse livro, que '.\ leremos em breve. Queremos, todavia, abordar brevemente um problema: at que ponto certas posies de sua Esttica so definidas e condicionadas por pressupostos. ontolgicos que, tal,ez, possamos esclarecer melhor nesta conversa. Uma questo preliminar e particulannente atual, com a qual eu gostaria de comear a nossa conversa, a questo que j se apresentou a mim numa discusso ocorrida m Marburg, numa discusso que tive com os alunos do professor Abendroth, aqui presente. A questo precisamente a seguinte: existe alguma coisa que se possa _definir como uma ontologia marxista? Que sentido pode

    .fter o trm.o "ontologia" numa filosofi marxista? Foram os pr6-p1ios alunos de Abendroth que me objetaram: de um ponto de vista marxista, a ontologia se resolve na sociologia. As catego-

    1 \ rias ontol6gicas deveriam, ento, ser entendidas exclusivamente como categorias hist6rico-sociais. Todavia, para que o discurso de carter ontol6gico possa ter um sentido, estas categorias ontolgicas devem compreender algo que no se pode definir exclusi., vanJ.ente como economia e histria. Interessa-nos saber o que pensa o senhor sbre ste problema.

    LUKCs - Suponho que sempre preciso comear - e isto vale. para os cientistas tanto como para qualquer outra pessoa por questes da vida cotidiana. Na vida cotidiana, os

    11

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  • problemas ontolgicos se colocam num sentido. muito grosseiro. Darei um exemplo bastante simples: quando algum caminha pela rua - mesmo que seja, no plano da teoria do conhecimento, um obstinado neopositivista, capaz de negar tda a realidade - ao chegar a um cruzamento, dever por fra convencer-se de que, se no parr, um automvel real O atropelar, realmente; no lhe ser possvel pensar que uma frmula matemtica qualquer de sua existncia estar subvertida pela funo matemtica do carro ou pela sua representao da representao do automvel. Tomo deliberadamente um exemplo to

    1 simples para mostrar como na nossa vida as diversas formas de ser esto sempre unidas entre elas e o interrelacionamento constitui o dado primrio. Por isso, no posso considerar sria a pergunta sbre o carter sociolgico ou ontlgico de uma dada categoria. Hoje entre. ns tornou-se hbito representar qualquer disciplina que encontrou cidadania acadmica como uma esfera autnoma do ser. At um filsofo inteligente como Nicolai Hartmann afirma que a psiqu deve ser alguma coisa autnoma, de vez que a psicologia j h duzentos ou trezentos anos constituiu-se como uma cincia particular, no mbito das disciplinas universitrias. -Ora, sou do parecer de que 'tdas estas coisas So histricamnte mutveis, e que, dste ponto de vista,

    I o ser e suas transformaes so o fundamental. Na minha opinio, daqui que se deve- comear e daqui comecei eu mesmo na minha esttica.' Essa esttica traz o ttulo no de todo exato de Eigenart des sthetischen (Especificidade do fato esttico);dever-se-ia dizer mais precisamente: posio do princpio est-; tico no quadro da atividade espiritual do homem. Ora, as ativi-:' dades espirituais do homem no so, por assim dizer, entidades da alma, como imagina a filsofia acadmica, porm formas diversas sbre a base das quais os. homes organizam cada uma de suas aes e reaes ao mundo externo. Os homens dependem sempre, de algum modo destas fonnas, para a defesa e a cons truo de sua existncia Por exemplo; hoje, quase certo que os maravilhosos desenhs da idade da pedra, encontrados na Frana meridional e na Espanha, eram na realidade prepara tivas mgicos para a caa; aqules animais no eram pintados c:om finalidades estticas, e sim porque os homens daqueles tempos acreditavam que uma boa representao de um, animal equivalesse a uma melhor possibilidade de caa. Esta pintura , 12

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    ento, uma reo utilitarista, ainda primitiva, vida. Com a i' socializao da sociedade ste carter se aprofunda. A repror duo imediata da vida , pois, sempre onclicionada. Quero

    dar ainda um exemplo bastante simples. Vai-se a uma loja e compra-se uma gravata ou seis lenos. Se tentar a representao do processo necessrio para que o senhor e os lenos se encontrem no mercado, ento ver que se pode constituir um , quadro muito variado e complexo. Ora, e1:1, acho _q _ stes processos no podem vir excludos da compreenso da realidade. :ste o primeiro ponto sbre o qual me parece oportuno insistir.

    O segundo ponto relaciona-se com a metodologia e em certo sentido j nos leva a um nvel muito mais avanado. A cincia que progride tem de fato tndncia a compreender cada aspecto, cada maneira de manifestar-se da vida, nas mais altas formas de sua objetivao e acredita que ste seja o melhor tipo de anlise. Pense-se na teoria kantiana do conhecimento que, por um lado, parte da matemtica daquele tempo e da fsica newtoniana como fundamento do conhecimento, e, por outro lado, assume a escolha moral num alto nvel de desenvolvimento como fundamento da prtica. ,' Ora, creio que no possvel descer de uma forma mais alta a uma forma mais baixa. No se pode descer da forma newtoniana da anlise,

    1 1da fsica newtoniana, s representaes que permitem a umI caador primitivo Compreender, com base em certos rumores, o grau de aproximao de um cervo ou de um cabrito. Domesmo modo, s tomo como ponto de partida o imperativo categrico, no poderei compreender as aes simples e prticas dohomem na vida cotidiana. Creio, ento, que o caminho que devemos empreender, e com o qual j entramos de cheio nos problemas ontolgicos, o da pesquisa gentica Isto : devemostentar pesquisar as relaes nas suas forms fen_omnicas niciais

    I e ver em que condies estas formas fenomnicas podem torna'-se cada vez mais complexas e mediatizadas. Naturalmente,em certo sentido, isto desagradvel para o cientista. De fato,se considero o fator "cincia" devo perguntar-me: qual a sua:origem? Em cada posio teleolgica - e o trabalho umaposio teleolgica - terilos um momento no qual o homem.

    . :\ que trabalha, mesmo que se trate de um homem da idade da -

  • anterior produo dos instruinentos de trabalho e penso em uma poca na qual o homem primitivo, para satisfazer a certas funes, limitava-se a recolher as pedras mais adequadas, posso imaginar ste homem primitivo que diz, observando duas pedras: esta prpria para arrancar um ramo e esta no ( ou qualquer coisa no gnero: pouco importa que tenha formulado a ,questo nest