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Pensando Famlias, 22(1), jun. 2018, (29-43).

Conjugalidade e Gesto do Oramento Domstico: Um Estudo Qualitativo

Anglica Lopes Gonalves1

Sandro Caramaschi2

Marianne Ramos Feij3

Resumo

Este artigo um relato de pesquisa qualitativa de mestrado, cujo objetivo descrever como casais

no clnicos percebem as dificuldades e as divergncias ao lidar com o oramento domstico. Foram

realizadas entrevistas semiestruturadas com seis casais, com e sem filhos, com at cinco anos de

casamento. Os resultados mostraram que as divergncias esto relacionadas aos custos dos produtos

e ao grau de autonomia de cada cnjuge nas decises de compras. Questes culturais como gnero e

o consumismo influenciam o modo de lidar com o dinheiro, alm da repetio intergeracional de

comportamentos e de padres de interao familiar. O conhecimento sobre tais dinmicas contribui

para a compreenso por parte de psiclogos e de terapeutas de casais da dimenso financeira no

casamento, bem como para a estruturao de futuras prticas teraputicas, educativas e preventivas

em situaes de conflitos conjugais.

Palavras-chave: conjugalidade; oramento domstico; gnero; intergeracionalidade.

Conjugality and Management of the Household Budget: A Qualitative Study

Abstract

This article is a qualitative research report of a masters degree, whose purpose is to describe how

non-clinical couples meet the struggle and divergences when dealing with the household finances. Six

couples, with and without children, that has been married for up to five years were interviewed. The

results have shown that the divergences are related to the price of products and each partners self-

sufficiency in making shopping decisions. Cultural factors like gender and consumption affect their

money management, besides the intergenerational repetition of behavior patterns and family interaction.

Insight about these dynamics contributes to the understanding of the marriages financial dimension by

therapists and psychologists, as well as to developing future therapeutic, preventive and educational

methods in marital conflict situations.

1 Mestre pelo Programa de Ps-Graduao em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem da Universidade Jlio de Mesquita Filho, Faculdade de Cincias, Bauru-SP. 2 Professor Assistente Doutor da Universidade Jlio de Mesquita Filho, Faculdade de Cincias, Bauru-SP. 3 Professora Assistente Doutora da Universidade Jlio de Mesquita Filho, Faculdade de Cincias, Bauru-SP.

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Keywords: marriage; household finances; gender; intergenerationality.

Introduo

Em uma sociedade consumista e desigual como a brasileira, a gesto dos recursos domsticos e

a diviso de tarefas voltadas gerao de renda tendem a impactar sobremaneira as relaes

conjugais e familiares. Altos nveis de desemprego, custo de vida elevado, dentre outros fatores, tornam

complexa a tarefa do casal de gerir o oramento domstico. Tenses relacionadas sobrevivncia em

famlias com menos recursos materiais e ao consumo em famlias cujos recursos garantem a

sobrevivncia fazem parte do cotidiano da maioria da populao. Mesmo aqueles que apresentam

renda bastante acima da mdia so frequentemente afetados pelos padres de status e de consumo

socialmente propagados, valorizados e reforados continuamente por intermdio de recursos

miditicos.

A adaptao a uma relao (seja conjugal, de trabalho ou outra) um desafio, especialmente

quando no h diviso de papis e autonomia satisfatrias na viso dos envolvidos. sabido que no

so apenas os recursos materiais que contribuem para a manuteno da desigualdade e da

dependncia nas relaes, j que papis construdos em torno de gnero afetam homens e mulheres

e influenciam a relao entre eles (Frabetti, Thomazelli, Feij, Camargo & Cardoso, 2015).

O estudo relatado neste artigo visou a compreender como casais no clnicos percebem suas

dificuldades e divergncias relacionadas ao gerenciamento do oramento domstico. O oramento

domstico pode ser definido como o fluxo de dinheiro que entra e sai do lar, oriundo de fontes diversas

como herana, investimentos, emprstimos e, mais usualmente, do trabalho dos cnjuges e/ou de um

cnjuge, utilizado para custear as despesas geradas com habitao, sade, educao, vesturio,

transporte, lazer, banco e, inclusive, a ao de poupar.

Gerenciar o oramento domstico, por sua vez, implica planejamento, organizao, direo e

controle de recursos (Duarte, 2011), de maneira que o sustento e a concretizao de projetos

individuais e comuns sejam possveis. Porm, alguns casais no dialogam sobre o uso do dinheiro,

sobre planejamento financeiro para o futuro e a respeito da necessidade de envolvimento de ambos os

cnjuges nesse processo (Carrilho, 2013), destarte, devido aos ideais romnticos que dissociam a

dimenso financeira da amorosa (Zelizer, 2012).

Alm dos comportamentos dos cnjuges, do padro de comunicao entre eles e do

relacionamento marital, as questes familiares tambm influenciam na gesto do oramento domstico.

O modo como os membros da famlia lidam com o dinheiro nas fases do ciclo vital pode se diferenciar

em virtude das demandas que vo emergindo, conforme explicam Cerveny e Berthoud (1997; 2002).

Na primeira etapa (fase de aquisio do ciclo vital familiar), d-se incio a construo da identidade do

casal e adquirem-se patrimnios, estabelecem novo modelo de relacionamento, nascem os filhos,

negociam-se regras e valores. Nas etapas seguintes, o emprego do dinheiro tambm discutido

conforme os contextos e, na fase adolescente (segunda etapa), podem surgir conflitos entre pais e

filhos sobre o investimento excessivo na aparncia e nos passeios. Na fase madura (terceira etapa), a

ateno volta-se para o casal, aposentadoria, padro de vida alterado e a chegada de novos membros

(casamento dos filhos, netos). E, finalmente, a fase ltima (quarta etapa) com o envelhecimento dos

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pais, a necessidade de lidar com perdas, viuvez, tratamentos de sade, seus respectivos custos e

demandas por cuidado de pessoas. Questes financeiras e de moradia tambm geram preocupao e

tenso nessa fase.

As questes de gnero tambm podem interferir na gesto do oramento, isto , a maneira como

cada cnjuge internalizou os papis sociais esperados para as pessoas conforme o seu sexo biolgico.

Uma das definies de gnero o conjunto de regras segundo as quais as sociedades transformam

as condies biolgicas da diferena em normas sociais... (Louis, 1986, p. 460).

Socialmente foram institudas funes especficas para homens e mulheres conforme suas

caractersticas antomo-fisiolgicas e psicolgicas (fora/fragilidade; razo/emoo). Comumente ao

homem era dado o direito de atuar no ambiente pblico (responsvel por prover as necessidades da

famlia) e a mulher, no ambiente privado, domstico, cuidando da casa e dos filhos (Ferreira, 2008).

Entretanto, por razes histricas, econmicas e sociais, mulheres passaram a participar mais

ativamente do mercado de trabalho (Hoffman & Leone, 2004), mudando em parte o cenrio que se pr-

configurava as divises de tarefas/trabalho. Apesar de certas mudanas, esteretipos ligados a gnero

so socialmente mantidos.

Na terapia de casal, as questes de gnero podem emergir por intermdio de conflitos. Estes

impulsionados por crenas preconceituosas ou pela assuno de comportamentos estereotipados que

sustentam o desequilbrio de poder entre os cnjuges.

Algumas famlias, ainda nos dias atuais, se alinham ao modelo chamado de patriarcal, no qual o

homem possui poder de deciso sobre a mulher e os filhos; a diviso de tarefas/trabalho baseada

nos sexos, conforme dito anteriormente; o vnculo afetivo da me para com os filhos, o pai afigura-se

como provedor; h regras na vivncia da sexualidade (e fidelidade) que garantem maior liberdade ao

homem (Macedo, 2009). H tambm famlias em que, por desejo ou necessidade, tal modelo vem

sendo revisto, o que no costuma ser tarefa fcil. Secco e Lucas (2015) buscaram compreender,

mediante estudo de caso coletivo, como a independncia financeira feminina influencia no

relacionamento amoroso e constataram baixo nvel de tolerncia para com os parceiros, indicando

dificuldades na resoluo de conflitos e adiamento da maternidade em funo da dedicao aos

estudos e carreira profissional.

Alm das questes de gnero, a comunicao entre o casal tambm influencia a gesto das

finanas, seja promovendo dilogos, negociaes ou desacordos. Watzlawick, Beavin e Jackson (2011)

afirmam que todo comportamento comunica algo, seja de modo analgico (no verbal) ou digital

(verbal). As trocas comunicacionais podem ser mais igualitrias (simtricas) ou mais complementares,

nas quais as diferenas so legitimadas. O equilbrio entre simetria e complementaridade pode gerar

flexibilidade de papis e trocas eventuais de posio entre cnjuges.

Na interao simtrica minimiza-se a diferena entre a dade e, na complementar, ela

maximizada. A diferena diz respeito