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COMPLEXO CAFEEIRO E ESTRUTURA FINANCEIRA: UMA OBSERVAO

SOBRE A ECONOMIA DA ZONA DA MATA DE MINAS GERAIS (1889/1930)

Anderson Pires*

A considerao da realidade da economia da zona da Mata mineira e suas transformaes

estruturais em seu perodo marcado pelo predomnio da atividade agrcola de exportao impe

uma anlise em que tentaremos sintetizar, no espao mais breve possvel, alguns dos elementos

que julgamos mais importantes, esclarecidos muito mais como ponto de partida para futuras

pesquisas do que propriamente pretendendo encerrar a discusso de aspectos por si s

controversos e, assim, marcados por distintas interpretaes presentes em trabalhos relativos

historiografia sobre o tema ou a regio.

Constituindo-se em um espao social e econmico que s recentemente vem sendo objeto

de estudos sistemticos, com base em fontes cuja natureza e estrutura permitem uma

aproximao muito maior com a realidade emprica a ser investigada, a regio da zona da Mata

tem demonstrado uma relevncia histrica bastante significativa, seja pela diversidade de sua

dinmica social e econmica ou pelas particularidades que contm, principalmente quando

inserida no quadro de estudos regionais que, explicitamente ou no, tem assumido algumas

interpretaes mais recentes na historiografia.

Se sua base de exportao permite sua insero no quadro geral das economias de feies

agroexportadoras que se desenvolveram no pas, o contexto poltico-administrativo e o espao

econmico em que se estruturou configuraram-lhe uma natureza interiorana que vai condicionar

boa parte de suas especificidades, aqui entendidas, de incio, por assimetrias diversas decorrentes

da ausncia de uma estrutura de comercializao externa em seu espao prprio. Alm disso, o

quadro geral de sua articulao com o prprio universo poltico do estado de Minas, permeado

no menos por contradies e assimetrias quando visto na sua evoluo geral, tambm lhe imps

srios condicionantes em seu processo prprio de evoluo estrutural. Marcada por ser uma das

regies mais ricas e economicamente dinmicas de Minas Gerais, no perodo aqui em questo, os

limites espaciais em que se desenvolveu a produo agroexportadora da Mata destoa

significativamente, quando comparada vastido do estado, de seu potencial econmico e os

impactos e disseminao da produo cafeeira estiveram longe de constituir uma base

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homognea a caracterizar o conjunto da unidade de Minas, contrariamente a outros centros de

produo.

Ora, em ambos os casos temos a formao de vetores que, em grande parte, vo impor ao

espao econmico em questo uma posio perifrica implcita em qualquer anlise que tenha na

prpria zona da Mata seu objeto principal. Em outras palavras, a ausncia de um ncleo

comercial de exportao e o deslocamento definitivo da estrutura do poder poltico estadual,

com todas as conseqncias que poderiam trazer, selaram os limites no interior dos quais esta

economia iria se organizar e desenvolver.

importante perceber que boa parte da bibliografia referente cidade e regio ter neste

cenrio o ponto de referncia fundamental de suas interpretaes. Marcadas por secundar

concluses relativas ao contexto do conjunto da provncia e futuro estado (assumido como uma

entidade constituda equivocadamente de uma homogeneidade scio-econmica interna), tais

interpretaes tm em comum o fato de reduzir a economia da Mata sua natureza perifrica.

Assim, esta economia seria uma espcie de estrutura amorfa e inativa, destituda de contornos e

condies que lhe imprimissem uma delimitao enquanto espao regional e econmico prprio,

no interior do qual teria se verificado as condies suficientes de um importante processo de

acumulao de capital e da efetivao da transio capitalista que teria marcado outras regies de

produo agrria de exportao no pas1. A considerao desta estrutura como uma economia de

enclave (que tem predominado em vrios estudos presentes na historiografia mineira, mesmo

que restritos ao sculo XIX2) emblemtica neste sentido, porque, para alm da sua completa

ausncia de contedo e de sua desconsiderao de importantes regies para a formao histrica

de Minas, no tem se colocado como um ponto de vista propriamente estimulante para futuros

estudos sobre a regio.

certo que esta historiografia deu suas contribuies para o universo histrico regional.

No entanto, uma viso mais apurada tem revelado o quanto estas mesmas interpretaes tm se

distanciado da realidade histrica do municpio e regio. Partindo de um ponto de vista que

* Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e doutor em Histria Econmica pela Universidade de So Paulo(USP).1 LIMA, J. H. (1981). Caf e Indstria em Minas Gerais 1870/1920. Vozes, Rio de Janeiro; CANO, W. (1985). PadresDiferenciados das Principais Regies Cafeeiras. Revista Estudos Econmicos, IPE/USP, So Paulo, 15(2): 291-306, mai-ago.2 A regio cafeeira foi, desde o incio, um enclave exportador que no teve praticamente nenhum impacto na vida econmica doresto da provncia. Ela era uma extenso da cafeicultura fluminense e todas as suas ligaes eram com estado do Rio de Janeiro.(...) MARTINS, R. A Economia Escravista em Minas Gerais no Sculo XIX. (1982). CEDEPLAR/UFMG, Belo Horizonte, p.39 (grifo nosso). MARTINS, R. e MARTINS, A. (1983).Slavery in a Nonexport Economy: Nineteenth-Century Minas GeraisRevisited. Hispanic American Historical Review, 63 (3), 537-568.

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integra, a priori, o universo interno das categorias e estruturas que caracterizaram Juiz de Fora e

regio ao seu arsenal explicativo, outra tem sido a percepo de sua natureza histrica e seus

padres de crescimento, ritmo, dinmica social e econmica tm revelado uma experincia de

desenvolvimento econmico relativamente singular quando confrontada com aquela de outros

centros de produo agroexportadores existentes no pas no mesmo perodo.

Em primeiro lugar, seu ciclo bsico de produo cafeeira ocorrera dentro dos marcos

cronolgicos deste trabalho, dotando o ncleo agroexportador desta economia de uma dinmica

suficiente para gerar inmeros efeitos de encadeamento3 cuja efetivao acabou por constituir-lhe

uma diversificao setorial digna de qualquer complexo agroexportador cafeeiro que tenha

surgido no perodo, desde que saiamos de modelos que se pretendam tipificadores do conjunto da

realidade brasileira4. A constituio de uma rede de transportes a partir de meados do sculo XIX,

neste sentido, significativa: eminentemente vinculada forma de expanso do cultivo da

rubicea, envolveu agentes econmicos, iniciativas empresariais e (em sua grande maioria)

recursos locais, gerados na prpria produo cafeeira; dentre seus inmeros impactos deve ser

destacada a integrao efetiva do espao regional economia de exportao, permitindo a

disseminao do cultivo e um amplo crescimento da produo, que acabar colocando a Mata

como uma das principais regies de produo cafeeira do pas; alm disso, possibilitou a

consolidao de um centro urbano de referncia e de uma hierarquia de cidades que lhe era

imanente e que aos poucos foi se delineando na regio. A consolidao de uma capital regional e

entreposto urbano deve ser entendida como aspecto central na constituio de qualquer complexo

regional porque representa todo o potencial de internalizao de investimentos e de fluxos de

recursos financeiros gerados na economia da cidade e regio, se colocando como ponto de

articulao e espao privilegiado do desenvolvimento de atividades tipicamente associadas ao

movimento de reproduo e expanso capitalista da economia.

Desta forma, tambm seria digno de nota a emergncia de um segmento financeiro-

bancrio como parte dos efeitos de encadeamento gerados pela produo cafeeira (com destaque

para o Banco de Crdito Real de Minas Gerais, fundado em 1889). Para alm do impacto

imediato da constituio de um aparelho bancrio em qualquer economia, representou uma ntida

3 HIRSCHMAN, A. (1985).Desenvolvimento por Efeitos em Cadeia: Uma Abordagem Generalizada. In SORJ, B.,CARDOSO, F.H. e FONT, M. (1985). Economia e Movimentos Sociais na Amrica Latina. Brasiliense, So Paulo.CRDENAS, H., OCAMPO, J.A. and THORPE, R. (2000). The Export Age: The Latin American Economies in the LateNineteenth and Early Twentieth Centuries. Palgrave, New York.4 CANO, W. (1977). Razes da Concentrao Industrial de So Paulo. Difel, So Paulo.

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expanso das formas de acumulao do capital agrrio da regio, envolvendo, como no caso dos

transportes, iniciativas e recursos gerados na prpria produo cafeeira5. Alm disso, em se

tratando da dimenso financeira da economia, manteve importncia estratgica nos fluxos de

recursos interespaciais que marca a economia da Mata. Sua estruturao implicou na ruptura de

um importante canal de afluncia de excedente gerado na economia local para o Rio de Janeiro,

ao qual a regio tinha at ento se inserido como rea de financiamento principal; por sua prpria

natureza institucional constituiu um importante instrumento de captao e reteno de recursos

gerados no espao desta economia e, pelas articulaes que manteve como instrumento de crdito

do setor produtivo, atuou bem prximo dos motores de crdito6 que alguns bancos regionais

chegaram a desempenhar em outras experincias de diversificao urbana e industrial7. As

condies principais par