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  • Capítulo 6

    Mídias: Amigas ou Vilãs? Qual a Influência sobre

    o Desenvolvimento das Crianças?

    Tainá Ribas Mélo∗ e Karina Fink

    1. Introdução

    No ińıcio da civilização o homem tinha que caçar seu próprio alimento, e para isso, ele corria, pulava, nadava, escalava, ou seja, realizava atividades f́ısicas intensas para sua sobrevivência ao mesmo tempo que cuidava e criava de sua prole, atividade destinada mais às mulheres. Atrelada à Revolução Industrial no século XVIII (Aguiar, 2009) e depois da Segunda Guerra Mundial houve profundas mudanças sociais, com a inserção da mulher no mercado (Tardido & Falcão, 2006), o que ocasionou uma modificação na forma de cuidar das crianças, que agora permaneciam em locais denominados creches (Aguiar, 2009). Além disso motivou-se a fabricação de alimentos pré-preparados (Aguiar, 2009) com consequentes mudanças nos perfis epidemiológicos e aumento de doenças crônicas relacionadas aos hábitos de vida (Tardido & Falcão, 2006).

    Isso configura um novo modelo de cuidar e/ou educar. Se antes as crianças eram criadas em casas, ambientes espaçosos, onde podiam correr e brincar, até mesmo na rua, com o tempo com a urbanização e violência, e as crianças passaram a ficar dentro de casa, em apartamentos com pouco espaço para de desenvolver, e/ou sob cuidados muitas vezes de outras pessoas que não os pais, como familiares e/ou babás e ainda podendo esse cuidado ser terceirizado nas creches.

    No ińıcio desse século novas ferramentas e instrumentos estão possibilitando transformações sociais (Brito & da Purificação, 2008).

    ∗Autor para contato: ribasmelo@gmail.com

    Luize Bueno de Araujo & Vera Lúcia Israel (Ed.), (2017) DOI: 10.7436/2017.dcfes.06 ISBN 978-85-64619-19-7

    ribasmelo@gmail.com

  • 90 Mélo & Fink

    Assim, as novas tecnologias da informação e comunicação1, representadas pelas mı́dias, estão presente em praticamente tudo que nos cerca, desde televisores com controle remoto, aparelhos que lavam e secam a roupa e a louça, videogames, carros, tablets e celulares, e esse acesso está cada vez mais fácil para as crianças, incluindo mı́dias educativas2. Antigamente as brincadeiras de crianças entre elas eram a principal forma de entretenimento, geralmente em espaços amplos, e atualmente são restritas ou trocadas por outras formas de diversão, por meio de recursos tecnológicos atrativos, que muitas vezes funcionam como “babás” substituindo o cuidado e tempo dos pais e familiares.

    A influência das mı́dias na vida das crianças é tanta que já se tornou alvo de estudos nacionais e internacionais (Rideout, 2013; AVG, 2015) que realizam por anos o padrão de consumo e comportamento no uso das mı́dias por crianças na América e o impacto sobre suas vidas.

    Pode-se observar um exemplo desse grande alcance das mı́dias em estudo realizado com 34 escolares de Curitiba: dessas, 100% têm televisão e celulares, 91% têm computador em suas casas e 90% podem “brincar” nos computadores com jogos e em alguns sites da Internet e 21% têm videogames. O computador foi a mı́dia citada como preferida (47%) pelas crianças (Mota, 2007) e tem suscitado investigações do uso e das relações das crianças e familiares após esse aumento de consumo das mı́dias pelas crianças, ao passo que 57% de 5 anos das crianças sabem usar aplicativos mas dessas apenas 14% sabem amarrar os cadarços dos sapatos (AVG, 2015). Em crianças de 6 a 9 anos, no Brasil cerca de 97% utiliza a internet (AVG, 2015). E em menores de 2 anos cerca de 38% já utilizaram algum dispositivo móvel (Sena, 2014).

    Para Buckingham (2000) crescer na era das mı́dias eletrônicas virou um desafio! Desde o século XX que há uma preocupação cont́ınua acerca das mudanças do que se chama de infância, sendo que o uso das mı́dias parece ter influências contraditórias.

    1 “As tecnologias da informação e comunicação são o resultado da fusão de três vertentes técnicas: a informática, as telecomunicações e as mı́dias eletrônicas. (...) As novas tecnologias podem ser classificadas em mı́dia, multimı́dia e hipermı́dia. A mı́dia caracteriza-se por poucos elementos, como por exemplo, o rádio, o toca fitas que transmitem apenas som, ou seja, é só áudio; a televisão de antena também é uma mı́dia e já possibilita som e imagem. A hipermı́dia são os documentos que incorporam texto, imagem e som de maneira não linear. Multimı́dias (...) integram vários elementos ou aparatos que podem ser elementos ou dispositivos diferentes interconectados apresentados como módulos ou como um único produto denominado, geralmente, de computador multimı́dia” (Pinto, 2004, p. 04)

    2 Mı́dia educativa corresponde a uma variedade de mı́dias, incluindo imagens de filmes (filme, televisão, v́ıdeo), rádios e músicas, mı́dias impressas (jornais e revistas), e também as novas tecnologias de comunicação digital (Buckingham, 2002).

  • Mídias: amigas ou vilãs? 91

    Figura 1. Cenários da infância 1. (Ilustração: Henrique Martins Schmidt)

    Por esse atual panorama e questionamentos que o presente caṕıtulo revisa e traz conceitos atuais sobre desenvolvimento infantil e a influência do uso de mı́dias e tecnologias sobre seu desenvolvimento.

    2. Metodologia

    O presente trabalho buscou revisar de forma cŕıtica alguns trabalhos que analisaram a influência das mı́dias e/ou tecnologias sobre o desenvolvimento infantil. Com base no questionamento que originou o t́ıtulo deste caṕıtulo: seriam as mı́dias amigas ou vilãs do desenvolvimento infantil?

    Como suporte teórico buscaram-se trabalhos em livros, bases de dados como Scielo, Pubmed, Google acadêmico, ou sites relacionados a estudos nacionais e internacionais sobre o tema. Como palavras- chave foram utilizados os termos “desenvolvimento infantil e tecnologias”, “desenvolvimento e mı́dias”, “infância e mı́dias”, “infância e tecnologias”, porém não se detendo somente a esses descritores como também realizando buscas em trabalhos citados.

    As figuras nesse caṕıtulo, mais do que ilustrações informativas buscam a sua reflexão.

    3. Infância, Mídias e Brincadeiras

    Para responder a pergunta principal do presente caṕıtulo, foram organizados tópicos para discussão: Definição da Infância; Mı́dias e tecnologias: Amigas ou Vilãs?; Mudanças na Infância; O Brincar.

    3.1 Definição de infância Em termos legais e por definição de idade:

  • 92 Mélo & Fink

    Lei Federal 8.069/90 (Estatuto da Criança e do

    Adolescente). Art. 2o Considera-se criança, para

    os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de

    idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e

    dezoito anos de idade (BRASIL, 1990).

    Infância compreende portanto o peŕıodo desde o nascimento até a transição para a fase adulta e em termo biológicos até o advento da puberdade com as caracteŕısticas sexuais secundárias que caracterizam a transição para a adolescência.

    Defende-se, também, uma definição voltada não somente aos aspectos biológicos e de idade cronológica, mas também como um peŕıodo definido por uma construção social e cultural variável, ou seja, em constante construção e sob influências de vários fatores (Buckingham, 2000).

    De qualquer maneira e independentemente da idade têm-se no desenvolvimento infantil a base, o alicerce da construção de habilidades e capacidades. Esse desenvolvimento é um processo cont́ınuo ao longo de toda vida, influencia e é influenciado pelos processos cognitivos e de inteligência, assim como por fatores do ambiente e atividades que realiza (Israel et al., 2014; Castilho-Weinert & Forti-Bellani, 2015).

    Em termos motores o desenvolvimento ocorre por ganhos e mudanças constantes no repertório motor, geralmente das habilidades mais amplas até serem aperfeiçoadas na motricidade fina (Castilho-Weinert & Forti-Bellani, 2015).

    Na proposição de um desenvolvimento infantil pleno, diversão, educação, socialização e comunicação deveriam ser os tópicos de uma infância saudável (Behenck et al., 2013).

    Com a mudança de cenário da infância e os grandes avanços de tecnologias (reflita sobre as Figuras 1–5), esperam-se mudanças também no desenvolvimento infantil.

    Nesse sentido, seriam as mı́dias as propulsoras de tais mudanças?

    Não dá para negar as mudanças ocorridas na infância. Nos últimos 30 anos elas começaram a passar mais tempo em instituições, em desigualdades sociais crescentes. As fronteiras entre crianças e adultos parecem menos viśıveis em algumas áreas enquanto em outras foram aumentadas. Pode-se dizer que as crianças ganharam poder poĺıtico, através de leis e representações, mas isso também as tornou mais vigiadas. Nesse caminho as mudanças das mı́dias também parecem influenciar as mudanças na infância. Estudos (Buckingham, 2000, 2007) relatam que crianças que têm poder aquisitivo melhor consomem mais mı́dias e passam mais tempo em casa, enquanto o uso de espaços públicos e das brincadeiras parece entrar em decĺınio. Há outros no entanto que defendem que a oferta

  • Mídias: amigas ou vilãs? 93

    Figura 2. Cenários da infância 2. (Ilustração: Henrique Martins Schmidt)

    de brinque