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    BIBLIOGRAFIA DE HERLDICA

    MEDIEVAL PORTUGUESA

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    ESTUDOS DE HERLDICA MEDIEVAL528

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    Bibliografia de herldica medieval portuguesa

    Miguel Metelo de Seixas

    Consideraes prvias

    O convvio entre herldica e produo cientfica no tem sido, de uma orma

    geral, nem cil nem linear. Os motivos provm sem dvida de diversos actores, mas

    o cerne da questo oi resumido por Faustino Menndez Pidal de Navascus:

    as en general enunciada [la herldica] no h tenido a veces buena ama,

    en parte com razn, porque mucho de lo escrito bajo este nombre no merece

    consideracin cientfica, y en parte sin ella, porque no debi trasladarse al asunto ladesestima imputada a los textos. Pero ue tanta la insistencia en aspectos de inters

    nulo o escaso y tantas las interpretaciones desatinadas, que algunos llegaron a juzgar

    imposible lograr mejores rutos en esa materia.1

    Questo, pois, de preconceito dos historiadores em relao matria herldica

    ou aos heraldistas; e, como reaco e compensao, esplndido isolamento destes

    em relao ao mundo acadmico. Com honrosas excepes de parte a parte,

    naturalmente. Mas parece sintomtico que a mais recente publicao sobre

    historiografia de Portugal medieval tenha omitido qualquer reerncia produo

    de trabalhos herldicos: prova cabal de um divrcio que teima em persistir2.

    Ao indagar as razes de ser deste preconceito mtuo, verifica-se que elas

    nasceram em orte medida da imagem do saber herldico tal como oi construda

    at h pouco tempo atrs (para no dizer at hoje) pelos heraldistas. Essa imagem

    a de um saber de natureza abstracta e normativa, baseado num lxico e numa

    gramtica prprios, dirigido para intuitos classificativos, identificativos e de ordem

    simbolgica. al entendimento radica na viso que os tratadistas oram erguendo

    desde o final da Idade Mdia e ao longo do Antigo Regime3; viso que, no sculo

    XIX, acabou por transitar, sua maneira, para a classificao e o uso da herldica

    enquanto cincia auxiliar da histria.

    1MENNDEZ PIDAL DE NAVASCUS, Faustino, Los emblemas herldicos. Una interpretacin histrica,Madrid, Real Academia de la Historia, 1993, p. 13.

    2 MAOSO, Jos (dir.), Te historiography o medieval Portugal (c. 1950-2010), Lisboa, Instituto deEstudos Medievais, s. d. [2012]. Em todo o livro, apenas liminarmente aparecem duas reerncias a artigos queversam sobre temtica herldica, ambas em contexto marginal: a primeira na p. 220, nota 48; a segunda na p.622, nota 63.

    3BOUDREAU, Claire, LHritage symbolique des hrauts darmes. Dictionnaire encyclopdique de lenseigne-ment du blason ancien (XIVe XVIesicles) (prace de Michel Pastoureau),Paris, Le Lopard dOr, 2006, 3 vols.

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    certo que, a partir de meados do sculo XX, se operou uma prounda

    renovao epistemolgica, condensada na obra de Michel Pastoureau e por ela

    diundida, em resultado da qual a herldica passou a ser encarada como um ramo do

    saber historiogrfico4. Logo na introduo, Pastoureau definia a herldica como umramo da historiografia e fixava metas para a alterao dos seus estudiosos, declarando

    que at ento

    Bon nombre dentre eux ne sont venus lhraldique que par le biais des

    recherches gnalogiques ou des vanits nobiliaires. Dautres, moins nombreux mais

    plus spcieux, nont recherch dans les armoiries que de mystrieux symboles et les

    traces prtendues dun langage sacr. Entre les marchands danctres et les amateurs

    dhermtisme, rares ont t les hraldistes qui ont essay de aire oeuvre dhistorien.Il est aujourdhui grand temps quentre lhraldique gnalogique et nobiliaire et

    lhraldique sotrique et symbolique, lhraldique vritablement scientifique prenne

    enfin la place qui lui convient.5

    al lugar tinha de assentar numa renovao epistemolgica e metodolgica,

    baseada na ormulao de problemticas como, entre outras, a crtica das ontes, a

    origem das armas, a sua diuso social, as tendncias e modas na escolha das cores e

    das figuras, a relao que elas mantinham com os enmenos da psicologia individuale colectiva, da sensibilidade, do gosto, da moral, da cultura. Afigurava-se sobretudo

    necessrio entender as armas como um cdigo social revelador da identidade e da

    personalidade dos seus utentes; e, se a primeira destas vertentes correspondia aos

    estudos tradicionais, j a segunda abria perspectivas novas e ligava-se no apenas

    aos demais aspectos do conhecimento histrico, mas a uma srie de outros ramos

    do saber6. raavam-se pois pistas para um entendimento comum ou pelo menos

    uma base comparativa de diversos cdigos emblemticos, mediante recurso a

    4PASOUREAU, Michel, rait dHraldique, Paris, Bordas, 1979. Obra sucessivamente reimpressa em1993, 1997, 2003 e 2008. Note-se porm que este autor no apareceu de orma desenquadrada: ele prprio reerealguns dos seus precursores imediatos ou mulos, como Rmi Mathieu, Donald Lindsay Galbreath, Lon Jquier,Herv Pinoteau, Michel Popoff, entre outros. Mas oi de acto Pastoureau quem logrou sistematizar as correntesde renovao dos estudos herldicos e projectar estes, no mundo acadmico, para uma dimenso que eles atento desconheciam. E dot-los de alcance, continuidade e ramificaes igualmente inditos.

    5IDEM, Ibidem, p. 12.6IDEM, Ibidem, p. 15. Este alargamento do mbito da herldica no sentido de estabelecer uma compara-

    o entre as armas e outros enmenos emblemticos, e traar pontos de contacto com outras cincias humanas esociais j estava patente, por exemplo, na exposio Emblmes, otems, Blasons, organizada no Muse Guimet,em Paris, no ano de 1963. Emblmes, otems, Blasons. Muse Guimet. Mars-Juin 1963, Paris: Ministre dtat/

    Affaires Culturelles, 1963. Veja-se em particular a introduo de Pierre Francastel (pp. XI-XVI) e os textos deRmi Mathieu (pp. 69-73), Paul Adam (pp. 74-75), Lon Jquier (pp. 101-102), Jean-Claude Loutsch (pp. 105-106), Szabolcs de Vajay (pp. 109-111), A. Heymowski (pp. 115-116) e Ren Le Juge de Segrais (pp. 147-153).

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    diversificadas reas cientficas. A herldica entrava assim em contacto no apenas

    com outros ramos da historiografia, mas tambm com dierentes cincias humanas

    e sociais, com as quais poderia vir a construir relaes de intercmbio e mtuo

    proveito7. Esta diversificao revelou-se essencial para ultrapassar o quadro limitadoe limitativo da herldica entendida como mero instrumento de identificao dos

    detentores das armas, e para se alar a um nvel interpretativo e analtico. A tnica

    principal radicava na ideia de que as armas so, antes de mais, signos; e, como tal,

    pressupem a existncia de uma conscincia que lhes conere algum tipo de valor.

    Nessa relao entre signo e significado residia o objecto preerencial da nouvelle

    hraldique, consequentemente ligada de orma ntima histria das mentalidades

    e histria social, pois as armas devem ser entendidas como signes ayant pouronction de situer les hommes dans des groupes et ces groupes dans lensemble de

    la socit8.

    Na segunda edio do seu tratado, em 1993, Pastoureau acrescentou um

    captulo final intitulado Quinze ans de recherches hraldiques, em que azia o ponto

    de situao do que, no seu entender, havia mudado desde 1979. Salientava o autor

    a significativa penetrao da herldica nos meios universitrios e, de orma mais

    abrangente, nos trabalhos cientficos, a tal ponto que se tornara possvel a seguinte

    afirmao: lhraldique nest plus comme nagure une discipline rprouve ou

    mprise, mais une science reconnue. Reeria tambm as relaes eectivas e procuas

    estabelecidas com outros ramos do saber, em particular a semiologia, a histria da

    cultura, das mentalidades, das ideologias, da simblica, que lhe permitiam concluir:

    lhraldique a su multiplier ses enqutes, enrichir sa documentation, transormer

    ses mthodes et renouveler presque entirement ses problmatiques9. Em resultado

    e demonstrao de tal renovamento, a bibliografia de obras produzidas nesta rea

    disparara para nveis inditos. No obstante, permanecia um certo desequilbriodas pesquisas, tanto do ponto de vista das pocas e das regies, como das temticas

    7Cr. VAJAY, Szabolcs de, Linterdisciplinalit: le contexte interdisciplinaire de gnalogie et dhraldiqueen tant que sciences sociales, in Lidentit genealogica e araldica. Fonti, metodologie, interdisciplinarit, prospet-tive. Atti del XXIII Congresso internazionale di scienze genealogica e araldica. orino, Archivio di Stato, 21-26settembre 1998, Roma: Ministero per i Beni e le Attivit Culturali / Ufficio Centrale per i Beni Archivistici, 2000,vol. II, pp. 821-826.

    8 PASOUREAU, Michel, rait dHraldique, p. 289. A renovao epistemolgica condensada norait dHraldique oi devidamente assinalada por Jean-Claude Schmitt, que lhe dedicou uma recenso crticana revistaAnnales. Histoire, Sciences Sociales, 38eanne, n. 1, Jan.-Fev. 1983, pp. 207-209. Alm de assinalar a

    importncia de que o tratado se revestia para o redimensionamento da herldica, o autor prognosticava que aobra de Pastoureau contribuera donner lhraldique la place qui lui revient dans lhistoriographie actuelle.

    9PASOUREAU, Michel, rait dHraldique, p. 290.

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    abrangidas: questes como a origem das armas, a filologia do braso, a herldica

    imaginria, as relaes com outras ormas de emblemtica haviam suscitado estudos