AS MARCAS ARQUITECT“NICAS DE “BRASILEIROâ€‌ NA

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    1. Representaes Materiais do Brasileiro e Construo Simblica Do

    Retorno Turbulncia Cultural em Cenrios de Transio

    O sculo XIX Ibero americano,

    Neide Marcondes e Manoel Bellotto (orgs.),

    So Paulo, Edusp Editora da Universidade de So Paulo,

    2005, pp.165-189

    O Brasil, primeiro como colnia portuguesa e depois como destino principal de

    emigrao, configurou uma outra identidade de Portugal, prolongando afectos, encantos,

    magias e memrias decorrentes do que foram as trocas materiais e imateriais feitas no

    transito das pessoas, mercadorias, objectos e discursos.

    Hoje, o Brasil o destino do sonho para viagens de turismo em praias

    interminveis, o lugar do reencontro com parentes e conterrneos, a possibilidade de

    negcios, o encantamento das sonoridades e o lugar de gente com saudade da

    ancestralidade que nos recebe como parentes de vizinhanas antigas.

    Portugueses e brasileiros amam-se ainda como herdeiros ciosos de bens

    imateriais comuns, inventando contendas de sucessores de memrias que se expresso

    na mesma lngua, cujas razes mergulham em projectos de homens da modernidade que

    marcaram a gnese de um Estado, com a matriz num pequeno pas europeu de

    escassos recursos econmicos.

    As dimenses continentais, a diversidade das belezas naturais, as riquezas e o

    clima levaram a que se produzissem discursos e se criassem as imagens que perduram e

    mantm o fascnio de sempre pelo Brasil. Para Herculano citado por Belchior (1986), o

    Vasto Imprio, terra das produes quase espontneas do seu extensssimo solo

    regado por rios caudais que facilitam o trato do comrcio e a produtora de gnios e

    homens extraordinrios. De entre as suas riquezas, o ouro foi a sua exaltao maior e,

    para o Baro de Eschwege, citado por Belchior (1986), o ferro tanto em Minas que

    teria sido suficiente para abastecer o mundo. As riquezas infindveis dos rios com seus

    cardumes de peixes, das espcies de rvores de fruto, das madeiras para os navios e

    das manadas de gado vacum constituem o preenchimento do imaginrio descritivo do

    Brasil.

    Se estes exemplos ilustram a ideia da dimenso construda das riquezas, a

    administrao colonial fez dividir o territrio em capitanias, reduzindo o Brasil a

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    dimenses administrativas viveis. Ao Governador-geral competiu garantir a unidade

    orgnica a um territrio com 8 611 857 quilmetros quadrados, colonizado por um pas

    que, no sculo XVI, tinha cerca de um milho e duzentos mil habitantes, colocando, em

    todas as dimenses, um problema de escala.

    Por outro lado, as diferentes representaes da construo do Brasil tm

    encontrado sentido nas ideologias, nas fundamentaes econmicas mercantilistas

    coloniais, nas narrativas histricas exaltadoras dos heris fundadores e dos feitos

    militares, associados a actos de herosmo na obra gigante da epopeia portuguesa,

    distorcendo a viso que os brasileiros tm de Portugal e que os portugueses tm do

    Brasil.

    A dimenso do feito levou Lus Barbosa, citado por Belchior (1986), a considerar a

    obra histrica de Portugal to monumental como a obra potica de Cames e to

    indestrutvel como a obra civilizadora do Gama.

    Ser eventualmente pacfico considerar que a matriz da estrutura, organizao e

    funcionamento do pas colonizador conferiu princpios, forma e sentido a um pas que se

    tornou independente em 1822, prolongando quadros normativos, valores e estruturas

    unificadoras do Estado brasileiro.

    O Brasil foi o principal espao dos intercmbios culturais e civilizacionais

    promovidos pelos portugueses. Estes levaram, para este imenso territrio, soldados,

    lavradores e artfices, armas, sementes e instrumentos de ofcio, desde o arcabuz ao

    arado, desde o po ao arado. Foram os portugueses que levaram para o Brasil a cana do

    acar da Madeira, o caf da Arbia e as palmeiras asiticas das margens do Ganges.

    Ao mesmo tempo que subiram os rios, os colonos edificaram nas suas margens

    povoaes, vilas e cidades, repetindo no Brasil, de certo modo, o que o Imprio Romano

    tinham feito em Portugal nas lgicas de apropriao do espao, usando os seus rios e as

    vias terrestres para a instalao de pequenos ncleos urbanos, administrativos e

    militares, tendo como sentido ltimo o aproveitamento econmico dos seus recursos

    caldeado na lngua, na religio e suas ritualizaes.

    Simultaneamente, ao introduzir-se na alimentao novos produtos alimentares

    amerndios, tais como o milho, feijo, abbora e a batata, assistiu-se, em Portugal, a uma

    verdadeira revoluo agrcola, com efeitos no aumento demogrfico, reinventando-se, por

    isso, novos quotidianos para o mundo rural portugus.

    Contudo, a lgica escravocrata, militar e mercantil, associada a um suposto

    respeito jesutico pela diversidade cultural, conduziu a um novo desenho social,

    configurado no cruzamento tnico de ndios, negros e brancos, que, nas palavras de

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    Belchior (1986), constitui numa admirvel misturas de raas, fundindo mais tarde

    germnicos, italianos, srios e libaneses e japoneses que se caldearam com o sangue

    portugus.

    O Brasil definitivamente o pas da diversidade cultural e tnica na procura do

    tempo em que se dignifiquem os Estados pela dimenso do heterogneo e do que de

    particular tm os povos que os integram.

    Como pas de imigrao, foram as estratgias e os constrangimentos no acesso

    herana e sucesso da propriedade que determinaram as lgicas da emigrao

    portuguesa no sculo XIX, enquanto que a reproduo dos lugares sociais promoveu o

    retorno de muitos a Portugal, utilizando novas expresses simblicas em tempo de

    mudana de regime.

    Durante a segunda metade do sculo XIX e nas duas primeiras dcadas deste

    sculo, visvel uma estreita relao entre a emigrao, o retorno e as transformaes

    arquitectnicas, sociais, econmicas e culturais verificadas no Norte, no s pela

    diversidade dos protagonistas, das trajectrias pessoais e das transformaes polticas,

    econmicas como dos lugares de instalao em tempo de retorno. As casas dos Brasileiros, a que nos referimos em Fafe dos "Brasileiros" (1860-

    1930).., [1991:169-238] e mapas anexos, na perspectiva da sua localizao,

    implantao e caracterizao arquitectnica, foram obra de um restrito grupo de

    emigrantes de retorno.

    Estas casas so aqui, no locais de habitao, mas territrios de famlias

    com identificao burguesa.

    Na distino entre casa, como termo utilizado pela populao rural e

    famlia aplicado pela burguesia, ressalta a manifestao de uma divergncia

    concreta, entre os dois grupos sociais.1

    No existindo diferenas, para uma e para outra populao, quanto

    constituio da unidade social primria: um homem e uma mulher unidos pelo

    casamento, e os seus filhos, a preferncia burguesa pelo termo famlia liga-se

    ao facto da unidade social primria ser, no contexto da populao urbana, a

    famlia nuclear; as outras pessoas que vivem com a famlia so colocadas num

    plano quase extrnseco. [...] Os camponeses, pelo contrrio, consideram esses

    co-residentes como membros integrantes da "casa"-2

    1Pina-Cabral, Joo de, Filhos de Ado, Filhos de Eva, a viso do mundo camponesa no Alto Minho, Lisboa, D. Quixote, 1989, p.65 2Idem, ibidem

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    Sob o ponto de vista arquitectnico, a casa do Brasileiro tem

    caractersticas arquitectnicas e simblicas particulares, para alm da distribuio

    e funo dos espaos interiores e exteriores.

    Sob o ponto de vista arquitectnico, a casa do Brasileiro podem dividir-

    se em palcios, casas apalaadas e palacetes. Aquelas que se desenvolveram no

    casco das cidades so estreitas com trs andares. Encontramos como

    caractersticas comuns: os trios, as escadarias interiores e as guas-furtadas. No Interior o centro da casa a sala de jantar, o lugar onde so exibidos os

    objectos mais valiosos3, recordaes de viagens ao estrangeiro, pianos, pinturas dos

    familiares, situado no primeiro andar, virada para a rua, qual se tem a vista atravs de

    janelas altas e varandas com guardas de ferro. Neste andar encontram-se os quartos e a

    cozinha. As guas-furtadas constituem o lugar de habitao da criadagem.

    No rs-do-cho, o trio o lugar que delimita o acesso intimidade que se faz

    pela escadaria, aos arrumos e arrecadaes e virada rua encontra-se o escritrio e sala

    onde se recebe e que no tem acesso parte nobre e ntima da casa.

    Alm da casa, onde fizeram sobressair os jardins exticos, eram os senhores de

    terras e quintas herdadas ou compradas.

    Os seus proprietrios foram emigrantes que em tempo de retorno definitivo

    freguesia de Fafe de onde eram naturais, ou, sendo de outras freguesias do concelho

    vieram instalar-se na sede do concelho.

    Fixemo-nos nas trajectrias familiares dos brasileiros e nas estratgias de

    conservao e reproduo social, escolhidas pelo facto de serem as casas mais notveis

    de Fafe, vulgarmente designadas por casas de brasileiros e por que, entre eles e seus

    descendentes se estabeleceu, atravs de casamentos, uma trama de laos de

    parentesco e de estatutos sociais particulares de uma elite de proprietrios, letrados e

    burgueses, sempre divididos por opes de natureza politico-partidria, dividindo

    alternadamente o poder entre eles.

    Nesta luta pelo domnio e controlo dos lugares polticos, sociais e simblicos,

    informantes das estratgias geracionais, no foram raras as vezes em que esta tomou

    propor