As Ferramentas Perdidas Da Aprendizagem

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Sobre a importância do uso do Trivium clássico na educação

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  • As Ferramentas Perdidas da Aprendizagem

    por

    Dorothy Sayers [1]

    Eu, cuja experincia de ensino extremamente limitada, devo presumir que discutir educao uma matria, certamente, que no requer apologia. Isto uma espcie de comportamento que o presente clima de opinio inteiramente favorvel. Os bispos ventilam suas opinies sobre economia; bilogos, sobre metafsica; qumicos inorgnicos, sobre teologia; as pessoas mais irrelevantes so designadas aos ministrios altamente tcnicos; e claro, homens rudes escrevem para os jornais para dizer que Epstein e Picasso no sabem como pintar. At certo ponto, e desde que as crticas sejam feitas com uma modstia razovel, essas atividades so recomendveis. Demasiada especializao no boa coisa. H tambm uma excelente razo porque o amador pode sentir-se com o direito de ter uma opinio sobre a educao. Porque se nem todos ns somos professores profissionais, todos ns temos, em algum tempo ou outro, sidos ensinados. At se no aprendemos nada talvez em detalhe se no aprendemos nada nossa participao para a discusso pode ter um valor potencial.

    Entretanto, est no mais alto grau de improbabilidade que as reformas que eu proponho, em algum tempo implicaro em efeito. Nem pais, nem treinamento em faculdades, nem bancas examinadoras, nem secretarias de governos, nem os ministros de educao, as encarariam e aprovariam. Pois elas redundam nisto: que se vamos formar uma sociedade de pessoas educada, preparadas para preservar a sua liberdade intelectual no meio das fortes presses da nossa sociedade moderna, precisamos voltar a roda do progresso at uns quatrocentos ou quinhentos anos atrs, mais ou menos no final da Idade Mdia, at o ponto em que a educao comeou a perder de vista o seu verdadeiro objetivo.

    Antes que me despeam com a frase apropriada reacionria, romntica, medieval, laudator temporis acti [f do passado], ou qualquer que seja o rtulo que primeiro lhes venha s mos eu pedirei que considerem uma ou duas perguntas que ficam escondidas na nuca, talvez, de todos ns; e ocasionalmente apaream para preocupar-nos.

  • Quando pensamos sobre a idade to jovem na qual os rapazes iam para a universidade nos tempos, digamos, da dinastia Tudor; e dali em diante eram considerados capazes de assumir responsabilidade pela conduo dos seus prprios assuntos, ns nos confortamos.

    Quando pensamos sobre a incrvel tenra idade com a qual os jovens iam para a universidade, digamos, nos tempos da dinastia Tudor, e a partir de ento eram tidos como capazes de assumir a responsabilidade pela conduo dos seus prprios atos, de uma maneira geral nos sentimos confortveis com a prolongao artificial da infncia e adolescncia intelectual, que adentra os anos de maturidade fsica, a qual to marcada na nossa prpria poca? O fato de adiar a aceitao de responsabilidade para uma data posterior traz consigo um nmero de complicaes psicolgicas que, enquanto possam ser de interesse para psiquiatras, raramente so de benefcio seja para o indivduo ou para a sociedade. O principal argumento em favor de adiar-se a idade de deixar a escola prolongando o perodo de educao geralmente o de que h hoje em dia muito mais para ser aprendido do que havia na Idade Mdia. Isto em verdadeiro, mas no inteiramente. Muito mais matrias so ensinadas aos meninos e s meninas de hoje em dia mas isto significa que eles realmente sabem mais?

    J lhe ocorreu como estranho, ou lamentvel, que atualmente, quando a proporo de alfabetismo em toda a Europa Ocidental mais alta do que jamais foi, as pessoas devessem tornar-se suscetveis influncia de anncios e de propaganda em massa, em proporo at ento desconhecida, nem imaginada? Voc atribui isto meramente ao fator mecnico de que a imprensa e o rdio e demais meios tm tornado muito mais fcil a distribuio da propaganda numa grande rea? Ou voc algumas vezes incomodado pela suspeita de que o produto dos modernos mtodos educacionais menos bom do que ele ou ele podem ser em distinguir o fato da opinio; e o provado do plausvel?

    Ao acompanhar um debate entre pessoas adultas e presumivelmente responsveis, voc j se sentiu perturbado pela extraordinria incapacidade de um debatedor mdio para referir-se questo, ou para acompanhar e refutar os argumentos dos seus oponentes? Ou voc j parou para pensar sobre a incidncia extremamente alta de assuntos irrelevantes que surgem nas reunies de comits; e sobre a grande escassez de pessoas capazes de agirem como dirigentes de reunies de comits? E quando voc pensa sobre isso, e pensa que a

  • maioria dos nossos assuntos pblicos so solucionados por debates e por comits, voc alguma vez j se sentiu como se seu corao naufragasse?

    Voc j acompanhou uma discusso no jornal ou em qualquer outro lugar e notou o quo freqente os escritores falham em definir os termos que usam? Ou o quo freqente, se algum definir mesmo os seus termos, um outro assumir, na sua resposta, que ele estava usando os termos no sentido exatamente oposto quele no qual ele j os havia definido? Voc j se sentiu tonto com a quantidade de sintaxe descuidada que existe? E se sim, voc se sente incomodado porque deselegante ou porque pode levar a uma incompreenso perigosa?

    Voc acha que as pessoas jovens, ao deixarem a escola, no somente se esquecem muito do que aprenderam (isto somente o esperado), mas tambm se esquecem, ou traem-se por nunca haverem na verdade aprendido, como lidar sozinhos com um assunto novo? Voc se incomoda com freqncia ao encontrar-se com homens e mulheres adultos que parecem incapazes de distinguir entre um livro que seja bom, acadmico and apropriadamente documentado e um que seja, para qualquer olho treinado, notadamente nada daquilo? Ou que no consigam manusear um catlogo de biblioteca? Ou que, quando face a face com um livro de referncia, demonstrem uma curiosa incapacidade de extrair dali as passagens relevantes para o assunto que lhes seja de particular interesse?

    Voc freqentemente depara-se com pessoas para quem, suas vidas todas, um assunto permanece sendo um assunto, separado de todos os demais assuntos como se num compartimento estanque, de maneira que encontram dificuldade muito grande ao tentar uma conexo mental entre, digamos, lgebra e fico policial, entre tratamento de esgoto e o preo de salmo ou, mais geralmente, entre esferas tais do conhecimento como filosofia e economia, ou qumica e artes?

    Perturba-o, ocasionalmente, as coisas escritas por homens e mulheres adultos para mulheres e homens adultos lerem? Um bilogo bem conhecido escreve sobre este assunto num jornal semanal que um argumento contra a existncia de um Criador (acho que ele colocou de forma mais forte, mas j que eu, muito infelizmente, perdi a referncia, colocarei seu raciocnio o mais brando possvel) um argumento contra a existncia de um Criador, que o mesmo tipo de

  • variaes que so produzidas por seleo natural possam ser produzidas vontade, por criadores. Algum pode sentir-se tentado a dizer que isto mais um argumento a favor da existncia de um Criador. Na realidade, claro que no nenhuma das situaes; tudo o que isto prova que as mesmas causas materiais (seja a re-combinao dos cromossomos, sejam os cruzamentos e assim por diante) so suficientes para explicar todas as variaes observveis tanto como as vrias combinaes da mesma dzia de notas so materialmente suficientes para explicar a Sonata ao Luar de Beethoven e os sons produzidos por um gatinho andando sobre as teclas. Mas o fato de o gato andar sobre as teclas do piano no prova nem contesta a existncia de Beethoven; e tudo o que provado pelo argumento do bilogo que ele era incapaz de distinguir entre uma causa material e uma causa final.

    Eis aqui uma frase de fonte no menos acadmica que um artigo de primeira pgina no Suplemento Literrio do jornal Ingls The Times: O Francs Alfred Epinas, afirmou que certas espcies (e.g. formigas e vespas) somente podem encarar os horrores da vida e da morte em associao. No sei o que o Francs realmente disse, o que o Ingls diz que ele disse patentemente sem sentido. No podemos saber se a vida tem algum horror para a formiga, nem em que sentido pode ser dito que aquela vespa que voc mata no peitoril da janela encara ou no encara os horrores da morte. O tema do artigo o comportamento coletivo do homem; e as razes humanas foram inobstrutivamente transferidas da proposio principal para a situao de suporte. Assim o argumento, efetivamente, assume o que deveria provar um fato que se tornaria imediatamente aparente se fosse apresentado num silogismo formal. Este somente um exemplo pequeno e aleatrio, de um vcio que permeia livros inteiros particularmente livros escritos por homens da cincia, sobre temas metafsicos.

    Uma outra citao da mesma edio do Suplemento Literrio do The Times vem muito apropriadamente completar esta despretenciosa coleo de pensamentos inquietantes esta vez da reviso da obra Algumas Tarefas para a Educao escrita por Sir Richard Livingstone: Mais de uma vez o leitor lembrado do valor de um estudo intensivo de pelo menos um tema, de modo a aprender o significado do conhecimento e que preciso e persistncia preciso para alcana-lo. Todavia, h um reconhecimento completo, em toda a volta, do desconfortvel fato de que um homem pode ser um mestre

  • numa determinada rea sem mostrar julgamento melhor que o do seu vizinho em qualquer outro assunto; ele se lembra do que aprendeu, mas se esquece por completo de como aprendeu.

    Eu chamaria a sua ateno em particular para aquela ltima sentena, a qual oferece uma explicao do que o escritor corretamente chama de fato desconfortvel que as capacidades intelectuais a ns conferidas pela nossa educao no so prontamente transferveis a assuntos outros que no aqueles nos quais ns as adquirimos: ele se lembra do que aprendeu, mas se esquece por completo de como aprendeu.

    No o grande defeito da nossa educao atual defeito este rastrevel