ALLIEZ, E. Deleuze, Filosofia Virtual

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ALLIEZ, E. Deleuze, Filosofia Virtual

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  • I

    Eric . Ali iez

    o L uz_ FILOSO A VI TUA_ Tradu.o Heloisa B.S. Roch1a

  • 3Deleuze Filosofia Virtual

    ric Alliez

    DELEUZEFILOSOFIAVIRTUAL

    TraduoHeloisa B.S. Rocha

    coleo TRANS

  • 4 ric Alliez

    EDITORA 34

    Distribuio pela Cdice Comrcio Distribuio e Casa Editorial Ltda.R. Simes Pinto, 120 Tel. (011) 240-8033 So Paulo - SP 04356-100

    Copyright 34 Literatura S/C Ltda. (edio brasileira), 1996Deleuze philosophie virtuelle Les Empcheurs de penser en rond, d.Synthlabo, 1996LActuel et le virtuel d. Flammarion, 1996 (autorizao especial paraessa edio, lanada por ocasio dos Encontros Internacionais GillesDeleuze, Rio de Janeiro/So Paulo, 10 a 14 de junho de 1996, organiza-dos pelo Colgio Internacional de Estudos Filosficos Transdisciplinares)Agradecimentos: Claire Parnet

    A FOTOCPIA DE QUALQUER FOLHA DESTE LIVRO ILEGAL, E CONFIGURA UMAAPROPRIAO INDEVIDA DOS DIREITOS INTELECTUAIS E PATRIMONIAIS DO AUTOR.

    Ttulo original:Deleuze philosophie virtuelle

    Capa, projeto grfico e editorao eletrnica:Bracher & Malta Produo Grfica

    Reviso tcnica:Luiz Orlandi

    1 Edio - 1996

    34 Literatura S/C Ltda.R. Hungria, 592 Jd. Europa CEP 01455-000So Paulo - SP Tel./Fax (011) 816-6777

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

    Alliez, ricDeleuze filosofia virtual / ric Alliez ; traduo

    de Heloisa B.S. Rocha So Paulo : Ed. 34, 199680 p. (Coleo TRANS)

    Traduo de : Deleuze philosophie virtuelle

    ISBN 85-7326-029-7

    1. Filosofia. I. Deleuze, Gilles. II. Ttulo.III. Srie.

    96-0138 CDD - 1(44)

  • 5Deleuze Filosofia Virtual

    DELEUZEFILOSOFIAVIRTUAL

    ric AlliezDeleuze filosofia virtual ................................. 7

    Anexos:

    Gilles DeleuzeO atual e o virtual .......................................... 47

    Obras de Gilles Deleuze (1925-1995) ............ 59

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  • 7Deleuze Filosofia Virtual

    ric Alliez

    DELEUZEFILOSOFIAVIRTUAL

    In memoriam*

    * Verso modificada da palestra que encerrou a homena-gem organizada pelo Colgio Internacional de Estudos Filosfi-cos Transdisciplinares em 5 de dezembro de 1995, no Rio de Ja-neiro (Centro Cultural Banco do Brasil): Gilles Deleuze: umavida filosfica.

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  • 9Deleuze Filosofia Virtual

    No se perguntar o que os princpios so,mas o que eles fazem.

    Gilles DELEUZE

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  • 11Deleuze Filosofia Virtual

    O que pretendo aqui fazer, sumariamente, mon-tar e desmontar um paradoxo com o qual de um modoou de outro se haver defrontado todo leitor, amadorou experimentado, de Gilles Deleuze. Pois se incon-testvel que os estudos monogrficos sobre Hume,Bergson, Nietzsche, Kant ou Espinosa propem umaverdadeira gnese do pensamento deleuziano, no menos verdade que a relao de duplicao que De-leuze haver mantido com a histria da filosofia vero Prlogo sempre citado de Diffrence et rptition:Seria preciso que a resenha em histria da filosofiaatuasse como um verdadeiro duplo, e que comportassea modificao mxima prpria do duplo acabapor semear confuso, no sobre a identidade filosfi-ca de seu pensamento (uma filosofia da diferena,segundo a definio mais genrica; ou, mais rigorosa-mente, uma filosofia do acontecimento), mas quan-to prtica e realidade dessa filosofia que no temde resto outra questo que no a do pensamento e dasimagens do pensamento que a animam.

    com base nesse paradoxo e nessa dificuldade queentendo a concluso de Roberto Machado no livro que

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    consagra a Deleuze e a filosofia: Mais do que anun-ciar um novo pensamento, ela uma suma de pensa-mentos que relaciona por expressarem, em maior oumenor grau, a diferena1. Vocs j podem imaginar,por transparncia e diferena, qual ser a questo queeu gostaria ao menos de levantar esta noite: sob quecondies possvel afirmar que o discurso indiretolivre a que recorre Deleuze para constituir o espaodiferencial de sua obra como um muro de pedraslivres, no cimentadas, onde cada elemento vale porsi mesmo, e todavia em relao aos outros ou umpatchwork de continuao infinita, de ligao mlti-pla (Bartleby ou la formule) criador de umpensamento novo e de uma nova imagem do pensamen-to: o deleuzismo?

    Duas opes so a meu ver possveis.A primeira, terica, consiste em instalar-se num

    plano definido em extenso por Mille plateaux e emintenso por Quest-ce que la philosophie?, e em situar-se em posio de sobrancear as monografias. Mas, nofundo, por que se esmerar em reconstituir a equaoem todos os seus supostos termos se o resultado mos-tra com clareza que se est lidando com uma multipli-cidade qualitativa e contnua e no com uma somade pensamentos cuja medida seria fornecida pelo n-mero de elementos que contm? Situao bergsonia-na que experimentei em La signature du monde, ouquest-ce que la philosophie de Deleuze et Guattari?

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    A segunda, prtica ou emprica, consiste em apreen-der nas monografias filosficas aquilo que Deleuze nofaz voltar nem seleciona como puros estados intensi-vos da fora annima do pensamento seno para afir-mar a transmutao da filosofia enquanto tal. Quandoem nome da an-rquica diferena a filosofia empreen-de a excluso de todos os princpios transcendentes quepode haver encontrado em sua histria para se adap-tar s Formas de Deus, do Mundo e do Eu [Moi]a (cen-tro, esfera e crculo: trplice condio para no se po-der pensar o acontecimento2); quando a filosofia afir-ma a imanncia como a nica condio que lhe permitere-criar seus conceitos como as prprias coisas, masas coisas em estado livre e selvagem, para alm dospredicados antropolgicos.

    J nesse nvel, o que haveria de novo em Deleuzeseria que a radicalidade especulativa de sua ontologiadetermina nessa linha sem contorno (ou linha de fuga)a possibilidade de um materialismo filosfico enfim re-volucionrio. Um Ideal-materialismo do acontecimentopuro, indefinidamente mltiplo e singularmente univer-sal, nas palavras de Foucault que se aplicam perfei-tamente a essas filosofias postas-em-devir por Deleuze?Pensamento-Acontecimento ou, atravs de Nietzschee Bergson enfim reunidos, criao de pensamentoque procede por virtualizao. E tudo indica que se po-deria qualificar desta maneira o movimento de des-substanciao e de problematizao da histria dafilosofia operado por Deleuze sob o nome de desterri-

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    torializao, se virtualizar, como o indica Pierre Lvy,consiste antes de tudo em transformar a atualidadeinicial em caso particular de uma problemtica maisgeral, sobre a qual doravante colocado o acento on-tolgico. Isso fazendo, a virtualizao fluidifica as dis-tines institudas, aumenta os graus de liberdade, cavaum vazio motor.... Tudo se passando como se a des-territorializao deleuziana elevasse os autores po-tncia de flutuantes ns de acontecimentos em inter-face recproca e reciprocamente envolvidos num ni-co e mesmo plano de imanncia3. Tantos autores, tan-tos agenciamentos suscetveis de se atualizarem nas fi-guras e nas questes as mais diversas: da filosofia comoarte dos agenciamentos de que dependem os princ-pios (e no o inverso...), criao problematizante quecoincide com a emergncia do novo, que no tem porsujeito seno o virtual, cujo ato no seno um com-plemento ou um produto.

    (Essa iluminao da questo do novo pela noode virtual autorizada por um texto pstumo intitu-lado LActuel et le virtuel, publicado em anexo presente edio.)

    A optar por este segundo mtodo, em que se tratamenos de potencializar as filosofias (formalizando-as)do que de virtualiz-las (e atualiz-las), consoante umatroca perptua entre o virtual e o atual que define oplano de imanncia enquanto tal, dever-se- necessa-riamente partir, por razes que no so apenas de cro-nologia, do encontro de Deleuze com o empirismo.

  • 15Deleuze Filosofia Virtual

    Afinal, como o faria um autor de science-fiction, o em-pirista no trata precisamente o conceito como obje-to de um encontro, como um aqui-e-agora, ou antes co-mo um Erewhon de onde saem, inesgotveis, os aquie os agora sempre novos, diversamente distribudos conforme escreve Deleuze no mesmo Prlogo? OEmpirista, ou o grande Experimentador.

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    * * *

    Ora, Empirisme et subjectivit. Essai sur la naturehumaine selon Hume, publicado em 1953 (o agencia-mento-Hume, breve se ler) d efetivamente incio pesquisa por aquilo que Deleuze descobre no empi-rismo: uma filosofia da experincia que valha imedia-tamente, e no mesmo movimento, pelo ponto de vistaimanente que pe em jogo (o do associacionismo), co-mo crtica das metafsicas da conscincia e das filoso-fias do objeto (fenomenologia e formalismo lgico, in-clusive) enquanto crtica da representao. Pois asrepresentaes no podem apresentar as relaes atra-vs das quais o sujeito se constitui num dado que no outro seno o fluxo do sensvel como conjunto daspercepes irredutvel a um estado de coisas e conjun-o das relaes exteriores a seus termos. Assim, sechamamos experincia reunio das percepes dis-tintas, devemos reconhecer que as relaes no derivamda experincia; elas so o efeito dos princpios de as-sociao (...) que, na experincia, constituem um su-jeito capaz de ultrapassar a experincia. portanto

  • 18 ric Alliez

    num mundo de exterioridade mundo onde o pr-prio pensamento tem uma relao fundamental com oFora, destacar Deleuze em seu artigo Hume, es-crito uns vinte anos mais tarde , que no ignora umcerto carter transcendental da sensibilidade, que oser se iguala ao aparecer para uma subjetividade deessncia prtica... Nem terica (em posio de funda-mento ou de representante) nem psicolgica (em situa-o de interioridade representada), esta ltima se de-fine por e em um movimento de su