AI, SE EU TE PEGO! A CAN‡ƒO COMO SINTOMA .popula§£o e pelo poder pblico; os...

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  • AI, SE EU TE PEGO! A CANO COMO SINTOMA DA

    INSTANTANEIDADE MIDITICA1

    Helosa de A. Duarte Valente2

    A Norval Baitello

    Ai, se eu te pego... Vrus ou vermes?

    No dia 26 de maro ltimo, o crtico e bigrafo Ruy Castro voltava a escrever para a

    sua habitual coluna da pgina dois do jornal Folha de S. Paulo. Sob o ttulo Ameaas virais,

    inicia o texto abordando as diversas acepes que vm sendo aludidas ao termo viral. Ele

    mesmo, convalescente de uma encefalite que o deixou afastado do trabalho por algumas

    semanas, no se furta de comentar o sucesso retumbante do cantor Michel Tel e seu hit

    Ai, se eu te pego. Procede, ento, a uma gnese do que seriam as ltimas campanhas

    virais - algo que se espalha pelas redes sociais, como um vrus de gripe que se pega no ar

    e tambm atinge milhes3 (Castro, 2012:2). Ao publicar o texto o colunista enumerava,

    uma marca de 80 000 000 de acessos cano, pela internet, logo depois de descoberta

    1 Este artigo foi publicado no livro: CISC 20 Anos: Comunicao, Cultura e Mdia

    2 Helosa de A. Duarte Valente: Pesquisadora do CNPq, doutora em Comunicao e Semitica (PUC-SP),

    com estgio junto Escola de Altos Estudos em Cincias Sociais (EHESS, Paris), e ps-doutoramento junto

    ao Dept de Cinema, Rdio e Televiso da Escola de Comunicaes e Artes da Universidade de So Paulo

    (CTR- ECA-USP). autora de Os cantos da voz: entre o rudo e o silncio (So Paulo: Annablume, 1999) e

    As vozes da cano na mdia (Via Lettera/FAPESP, 2003); e organizadora de Msica e mdia: novas

    abordagens sobre a cano (Via Lettera; FAPESP, 2007); Madrigal Ars Viva, 50 anos: ensaios e memrias

    (2011); O Brasil dos Gilbertos: notas sobre o pensamento (musical) brasileiro - em parceria com Ricardo

    Santhiago (Letra e Voz, 2011). Coordena o Centro de Estudos em Msica e Mdia (MusiMid), com o qual

    desenvolve o projetos de pesquisa voltados a msica e suas interfaces: Cano d Alm-Mar: o fado e a cidade

    de Santos (CNPq; Realejo Livros); Dnde ests, corazn? O tango no Brasil, o tango do Brasil (Via Lettera;

    CNPq, 2012). Idealizadora e responsvel pelos Encontros de Msica e Mdia (2005/...) atua como

    pesquisadora e docente junto ao Programa de Ps-Graduao em Msica ECA-USP no Mestrado em Polticas

    Pblicas da Universidade de Mogi das Cruzes. 3 As outras campanhas virais difundidas na internet foram um filme de trinta minutos sobre o terrorista

    ugandense Joseph Kony, postado no YouTube e a saga de Lusa, aquela que foi ao Canad, sabe-se l para o

    que fazer...Ironiza, a seguir, o crtico: No me surpreender se uma prxima campanha viral envolver o

    casamento de Lusa com Cristiano Ronaldo ou o sequestro de Michel Tel por Joseph Kony para fins

    imorais (Castro, 2012: 2).

    http://cisc.org.br/portal/biblioteca/CISC_20_anos-Comunicacao_Cultura_e_Midia.pdf

  • pelo craque lusitano Cristiano Ronaldo. Ao final, da coluna, pontifica: Hoje, no h mais

    celebridades boas ou ms, h apenas celebridades-, provocando confuso (Castro, 2012:

    2).

    Embora todas as transposies metafricas que se faam a msicas que penetram

    na cabea, tocando sem parar de maneira contnua e implacvel sejam relativas aos vrus

    e bactrias, em termos mdicos a associao acabou sendo atribuda aos vermes. Em

    termos de imaginrio, difcil avaliar qual das referncias ganha, no sentido de provocar

    repugnncia ou medo: de um lado, os vrus, invisveis, propagados pelo ar, rapidamente;

    de outro, seres rastejantes, muitas vezes visveis ao olho nu; palpveis, gosmentos,

    grudam na pele. Imagin-los no interior do crebro aterrador... Como observaremos

    adiante, as aluses propagao da informao sonora (msica, ou trechos dela, em

    geral) adotaro pelo senso comum a metfora do micrbio que se difunde pelo ar, que

    contamina multides, ao passo que a msica se aloja individualmente no crebro

    humano, ter, como correspondente, os viscosos vermes.

    O fenmeno de repetio incessante de um fragmento musical que existe somente

    na memria ultrapassa o exerccio de pacincia, atingindo, em algumas vezes, um vis

    patolgico. So geralmente uns trs ou quatro compassos, que martelam os ouvidos, por

    dias seguidos. Os jingles publicitrios so concebidos para, desse modo, atuarem no

    crebro: (...) a indstria da msica criaos justamente para fisgar os ouvintes, para

    pegar e no sair da cabea, introduzir-se fora pelos ouvidos ou pela mente como

    uma lacraia, adverte o neurologista Oliver Sacks (2007: 51). Segundo ele, a expresso

    surgiu inicialmente em alemo (ohrwurm), em 1980, tendo-se estendido lngua inglesa

    (earworm)4(2007: 52).

    Diagnostica-se um verme de ouvido pela sua forma de ao e de contgio, que se

    d de acordo com o grau de exposio pea musical que afeta a vtima. Elementos

    4 De acordo com Sacks, James Kellaris, foi pesquisador de Marketing da Universidade de Cincinnati, que

    popularizou o conceito. A ideia, porm, antiga: J na dcada de 1920, Nicholas Slonimsky, compositor e

    musiclogo estava deliberadamente inventando formas ou frases musicais que pudessem fisgar a mente e

    for-las imitao e repetio. E em 1876 Mark Twain escreveu um conto (...), depois reintitulado Punch,

    Brothers, punch, no qual o narrador se v indefeso diante de algumas rimas bem cadenciadas (...) Dois dias

    depois, o narrador encontra um velho amigo, um pastor, e inadvertidamente o infecta com a msica (2007:

    52-53).

  • repetitivos, renitentes na obra facilitam uma replicao sucessiva: so os antgenos

    provocadores do estado de desestabilidade orgnica. Some-se a isso o fato de que o

    contgio pode-se dar de maneira fortuita. Lembra Sacks:

    Os brainworms costumam ser estereotipados e invariveis. Tendem a ter certa expectativa de vida, atuando a todo vapor durante horas ou dias e depois desaparecendo, com exceo de alguns espasmos residuais. No entanto, mesmo quando parecem ter sumido, tendem a manter-se espreita: permanece uma sensibilidade exacerbada, de modo e que um rudo, uma associao, uma referencia a ele pode tornar a desencade-los, s vezes anos depois. E so sempre fragmentrios. Todas essas qualidades so familiares para muitos epileptologistas, pois elas lembram acentuadamente o comportamento de um pequeno foco epletognico de incio sbito que irrompe, convulsiona-se e por fim se aquieta,

    mas fica sempre pronto para reanimar-se (Sacks, 2007:55).

    O que o estudo dos vermes ou vrus musicais tem de instigante , justamente o

    modo como as relaes entre memria e msica se estabelecem, no crebro humano. O

    que a semitica da msica prega, conceitualmente, pode assim ser explicado, pela

    neurologia:

    Alguns atributos das imagens mentais musicais e da memria musical no tm equivalentes na esfera visual e esse fato pode nos dar um vislumbre do modo fundamentalmente diferente de como o crebro trata a msica e a viso. Essa singularidade da msica talvez se deva, em parte, necessidade que temos de construir um mundo visual para ns, da resultando que um carter seletivo e pessoal impregna nossas memrias visuais desde o incio. As msicas, em contraste, j recebemos construdas. Uma cena visual ou social pode ser construda ou reconstruda de inmeros modos distintos, mas a recordao de uma msica tem de assemelhar-se ao original. claro que ouvimos seletivamente, com diferentes interpretaes e emoes, mas as caractersticas musicais bsicas de uma composio o tempo, o ritmo, os contornos meldicos, e at mesmo o timbre e o som- tendem a ser preservados com notvel exatido (Sacks, 2007:56)

    No caso de uma cano de grande sucesso, ou em uma pea publicitria, as

    associaes que a msica estabelece com o objeto ao qual se relaciona (a prpria msica,

    um produto a ser vendido etc.) vinculam-se diretamente s emoes e sentimentos.

    Dependendo da natureza destes vnculos, os mecanismos de reiterao, a longevidade da

    obra musical tende a ser mais efetiva.

    Assim, voc me mata? A contaminao sgnico-musical.

  • Em uma revista recente, cujo tema central aborda as relaes entre as catstrofes

    do mundo contemporneo e os processos comunicacionais, chama especial ateno o

    texto de Ktia Lerner e Pedro Gradella. Utilizando-se da noo de discurso este

    entendido como (...) conjunto de textos articulados numa prtica discursiva, processo

    comunicativo e, ao mesmo tempo, prtica social (Lerner; Gradella, 2011:34) os autores

    analisam como se construram as narrativas na imprensa carioca, desde o aparecimento

    do vrus Influenza H1N1, sua propagao at sinais mais contundentes de alerta, durante

    o ano de 2009. O artigo identifica como sentimentos de insegurana e medo foram

    paulatinamente urdidos face a uma ameaa de pandemia e as atitudes tomadas pela

    populao e pelo poder pblico; os sentidos e o sentimento de ameaa, perigo, diante do

    novo. De fato, a desinformao parece constituir o maior motivo de preocupao e

    insegurana, uma vez que a luta se trava com o desconhecido. Nestas condies, o

    trampolim para o temor iminente.

    Segundo a Organizao Mundial de Sade, desde o surgimento de uma nova

    doena, seu pico a epidemia, ou pandemia- at a sua erradicao, h algumas fases,

    assim caracterizadas:

    Fase 1: Nenhum novo subtipo de vrus de gripe foi descoberto em humanos.

    Fase 2: Nenhum novo subtipo de vrus de gripe foi descoberto em humanos, mas uma doena, variante animal ameaa os humanos.

    Fase 3: Infeco (humana) com um subtipo novo mas nenhuma expanso de humano para humano.

    Fase 4