A Estruturação Psíquica do Sujeito na Organização... um caso.

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Um artigo a não perder para que deseja saber mais sobre a dimensão inconsciente do sujeito nas Organizações. "Defende-se a tese de que o sujeito, além de uma dimensão racional facilmente identificável, possui outra inconsciente, fonte primeva de seus desejos. É a partir desta instância que ele se projeta em objetos de identificação que lhe propiciam satisfação. Dentre esses objetos, está a organização em que trabalha. Esta, por sua vez, apresenta-se como modelo aos indivíduos, tentando moldar sua personalidade e padronizar seus desejos e necessidades. Conclui-se que, embora gere maior satisfação com a organização para o colaborador em diversos aspectos, a implementação da qualidade total não o faz na proporção esperada."

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  • 1. Rev. FAE, Curitiba, v.4, n.3, p.53-64, set./dez. 2001 53 ResumoResumoResumoResumoResumo Buscando fugir de uma abordagem tecnocrtica, este artigo parte de referenciais psicanalticos, sociolgicos e administrativos para compreender a estruturao do sujeito, colaborador de uma organizao do segmento de plsticos, localizada na cidade de Curitiba (PR), que adotou o TQM como modelo administrativo. Defende-se a tese de que o sujeito, alm de uma dimenso racional facilmente identificvel, possui outra inconsciente, fonte primeva de seus desejos. a partir desta instncia que ele se projeta em objetos de identificao que lhe propiciam satisfao. Dentre esses objetos, est a organizao em que trabalha. Esta, por sua vez, apresenta- se como modelo aos indivduos, tentando moldar sua personalidade e padronizar seus desejos e necessidades. Conclui-se que, embora gere maior satisfao com a organizao para o colaborador em diversos aspectos, a implementao da qualidade total no o faz na proporo esperada. Palavras-chave: satisfao no trabalho; identificao organizativa; qualidade total. AbstractAbstractAbstractAbstractAbstract Deviating from a technocratic approach, this article is based on psychoanalytic, sociological and administrative references seeking to comprehend the structuring of the individual, whom collaborates with a corporation in the plastic market located in Curitiba (Brazil) which adopted TQM as administrative model. The authors defend the theses that the individual has an unconscious dimension, source of his/her primitive desires, beyond a rational one easily identified. In this unconscious dimension, the individual propels him/herself to familiar objects that give him/her satisfaction. Among these objects is the corporation where the individual works. The corporation presents itself as model to individuals and tries molding his/her personality and establish patterns for his/her desires and necessities. The conclusion is that TQM does not give the satisfaction for workers in the expected way. Key words: satisfaction in work; organizational identification; total quality management (TQM). Cristiane Romero Taylor* Rodrigo Rossi Horochovski** *Psicloga, Mestre em Adminis- trao pela Universidade Federal do Paran (UFPR). Professora da Business School FAE. E-mail: cristaylor@uol.com.br **Socilogo,MestreemSociologia das Organizaes pela Universidade Federal do Paran (UFPR). Professor das FaculdadesSPEIedaFaculdadeParanaense de Administrao, em Curitiba. E-mail: rorossi@uol.com. br A Estruturao Psquica do Sujeito na Organizao:A Estruturao Psquica do Sujeito na Organizao:A Estruturao Psquica do Sujeito na Organizao:A Estruturao Psquica do Sujeito na Organizao:A Estruturao Psquica do Sujeito na Organizao: o caso de uma empresa do segmento de plsticoso caso de uma empresa do segmento de plsticoso caso de uma empresa do segmento de plsticoso caso de uma empresa do segmento de plsticoso caso de uma empresa do segmento de plsticos A Estruturao Psquica do Sujeito na Organizao:A Estruturao Psquica do Sujeito na Organizao:A Estruturao Psquica do Sujeito na Organizao:A Estruturao Psquica do Sujeito na Organizao:A Estruturao Psquica do Sujeito na Organizao: o caso de uma empresa do segmento de plsticoso caso de uma empresa do segmento de plsticoso caso de uma empresa do segmento de plsticoso caso de uma empresa do segmento de plsticoso caso de uma empresa do segmento de plsticos

2. 54 IntrIntrIntrIntrIntroduooduooduooduooduo Os autores, neste artigo, valem-se de referenciais tericos da psicanlise, da sociologia e da administrao para compreender como o sujeito estrutura-se nas organizaeseoreflexodissonoprocessoorganizacional. Em particular, quer-se levantar os resultados de implantao do sistema de qualidade total (TQM)1 no que tange satisfao do colaborador em relao ao cotidiano da organizao em que trabalha. Em outras palavras, trata-se de responder ao seguinte problema de pesquisa: qual o impacto da implantao de um sistema de qualidade total na estruturao do sujeito em uma organizao no que se refere satisfao geral com o trabalho? A investigao teve como objeto uma empresa de mdio porte do segmento de plsticos, com cerca de 500 colaboradores, localizada em Curitiba (PR). Atua no mercado nacional h mais de 30 anos, sendo que recentemente passou a atuar, tambm, no mercado internacional. Os instrumentos utilizados para a coleta de dados empricos, aps pesquisa bibliogrfica acerca das variveis do trabalho, foram a observao participante e entrevistas estruturadas em uma amostra de 40 trabalhadores da rea industrial (cho-de-fbrica). O Modelo das Dimenses Bsicas da Tarefa, proposto por HACKMAN e OLDHAM (1975)2 , serviu de ponto de partida para as interpretaes. O objetivo demonstrar que o sujeito, alm de sua dimenso racional facilmente reconhecvel, possui uma esfera inconsciente, que faz parte de sua essncia e que a verdadeira sede dos desejos e da satisfao pessoal, conforme MOTTAe FREITAS (2000). Segundo a crtica tecida por CALDAS e TONELLI (2000, p.138), a concentrao na dimenso consciente e pseudo- racional, tpica na teoria das organizaes, deriva na verdade da tradio positivista da pesquisa comportamental, que tende a desprezar aspectos inconscientes e elementos menos racionais que do forma vida organizacional. A esfera inconsciente da vida organizacional, portanto, como ficar provado para o caso da organizao em exame e de resto para quaisquer organizaes, deve ser considerada pelo pessoal de nvel estratgico no processo de tomada de deciso. Em outros termos, este texto pretende fugir s decantadas tentativas de interveno organizacional de cunho tecnocrtico, considerando outras formas de interveno, como propem PETIT e DUBOIS (1998), para alm de prescrever tcnicas ou, at mesmo, remediar possveis disfuncionamentos. Para o desenvolvimento deste trabalho, dedicada uma seo explorao do processo de estruturao do sujeito nas organizaes, para o que fundamental um constructo terico centrado na psicanlise. Busca- se demonstrar como, para alm dos aspectos puramente racionais e calculveis, o cotidiano das organizaes empresas e outras decisivamente influenciado por dimenses e desejos subjetivos e inconscientes. 11111 A estruturao do sujeito nasA estruturao do sujeito nasA estruturao do sujeito nasA estruturao do sujeito nasA estruturao do sujeito nas organizaes: um referencialorganizaes: um referencialorganizaes: um referencialorganizaes: um referencialorganizaes: um referencial sciopsicanalticosciopsicanalticosciopsicanalticosciopsicanalticosciopsicanaltico Embora Freud no se tenha debruado especificamente sobre a questo das organizaes, alguns delineamentos j podem ser encontrados em seus originais, sobretudo em O Mal Estar na Civilizao, publicado em 1930, em que chama a ateno para a necessidade de se investigar o fenmeno. A preocupao dos psicanalistas emanou dos problemas de insero do sujeito nas organizaes quanto estruturao do psiquismo, ou seja, do inconsciente3 . Esse processo no comparece livre de conflitos4 . Assim, vital compreender os motivos por que a vida das organizaes marcada por disputas entre pessoas, insatisfaes, disfunes, metas no- atingidas, entre outros. Seriam as organizaes insanas? H muito evidencia-se tal problemtica como sendo parte da natureza organizacional. Por que as regras, os procedimentos, enfim a organizao como um todo carece da compreenso e adeso irrestritas de seus membros? Muitas so as explicaes. A sociologia consagrou as disputas pelo(s) poder(es) como elementos centrais ao entendimento das lutas no interior das organizaes. Os indivduos, denominados atores sociais nesta perspectiva, lutam por espao, liberdade de ao e reconhecimento social (CROZIER e FRIEDBERG,1977). Tal viso postula um comportamento racional. Percebe, portanto, o sujeito como agente de sua ao. , com efeito, insuficiente, medida que no considera as componentes inexplicveis luz da idia de racionalidade corrente. 3. 55Rev. FAE, Curitiba, v.4, n.3, p.55-64, set. /dez. 2001 Por esse vis, a psicanlise supre a lacuna sociolgica. Examina o quadro de conflitos, insatisfaes, disfunes, entre outros, a partir do desconforto sentido pelo sujeito aceitao dos limites impostos pela sociedade, limites estes que se traduzem no estabelecimento de regulaes dos mais diversos tipos e das interdies, o que se d num sentido patolgico. (KAS, 1983, p.XVI) Neste raciocnio, pode-se interpretar o citado mal- estar na civilizao de que fala Freud. No incio o sujeito to-somente governado pelo princpio do prazer de forma irrestrita. Aqui se encontra uma das instncias distinguidas por Freud em sua segunda teoria do aparelho psquico o id: local da personalidade onde se localizam as pulses cujo alvo suprimir o estado de tenso corporal gerado em sua fonte, ou seja, o objeto de satisfao. Os contedos do id, expresso psquica das pulses, so inconscientes, em parte hereditrios e inatos e em parte recalcados e adquiridos. (LAPLANCHE e PONTALIS, 1986, p.285). O sujeito, antes exclusivamente guiado pelas pulses, sofre os efeitos da angstia de castrao. O complexo de castrao deve ser referido ordem cultural em que o direito a um determinado uso sempre correlativo de uma interdio. Na ameaa de castrao que sela a proibio do incesto vem encarnar-se a funo da Lei enquanto ela institui a ordem humana, como, de forma mtica, o ilustra em Totem e Tabu (...), a teoria do pai originrio, reservando para si, sob a ameaa de castrar os filhos, o uso sexual exclusivo das mulheres da horda. (LAPLANCHE e PONTALIS, 1986, p.115). A castrao instaura, de forma violenta, o princpio de realidade. No se pode mais viver o prazer sem limites. Aparecem as interdies: as proibies que colocam o sujeito em contato com o mundo social, com o real, e que tero profundas conseqncias em sua estruturao. Somam-se ao id as duas outras instncias do aparelho psquico, o ego e o superego. O ego a parte organizada da personalidade, o executivo, envolvendo todas as funes denominadas especificamente psicolgicas: