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  • 7/24/2019 1 Bambu - Cap Ibracon

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    Instituto Brasileiro do Concreto

    Livro Materiais de ConstruoCivil 1

    CAPTULO 47

    BAMBU

    Khosrow Ghavami (1) e Normando Perazzo Barbosa (2)

    (1) Professor Titular, PhD, Departamento de Engenharia CivilPontifcia Universidade Catlica do-Rio de Janeiro,

    Rua Marques de So Vicente, 225, Gvea, 22453-900 Rio de Janeiro - RJemail: [email protected]

    (2) Professor Titular, Doutor, Departamento de Tecnologia da Construo CivilCentro de Tecnologia da Universidade de Federal da Paraba

    Cidade Universitria, 58059-900 Joo Pessoa PBemail: [email protected]

    1 IntroduoOs materiais industrializados mobilizam vastos recursos financeiros, consomem

    uma enorme quantidade de energia e requerem um processo centralizado para suaobteno, resultando em custo elevado para grande parte da populao mundial. Dentreas conseqncias h os problemas de desemprego e de crise habitacional em reasrurais e em pequenas cidades. Somem-se a isso os resduos dos materiais norenovveis que so inaproveitados, causando permanente poluio. Nesse sentido, torna-

    se evidente que materiais ecolgicos podem satisfazer a algumas exignciasfundamentais dos dias de hoje, como minimizao do consumo de energia, conservaodos recursos naturais, reduo da poluio e manuteno de um ambiente saudvel.Assim, so intensas as pesquisas em andamento sobre materiais no poluentes, comofibras vegetais, bambu, terra. Com base nos estudos sobre o seu comportamento e suautilizao, esses materiais vm se apresentando como alternativos na construo. Porisso, poderiam ser muito mais aproveitados nos locais onde so encontrados emabundncia.

    O bambu, presente constantemente na paisagem brasileira e em toda zona tropicale parte da zona subtropical da terra, uma resistente gramnea ainda no devidamenteapresentada aos povos ocidentais. Contando com mais de 1200 aplicaes no oriente,essa espcie vegetal tem um potencial latente espera de uso.

    Dentre as vrias caractersticas favorveis ao seu uso na arquitetura e naengenharia pode-se citar:

    - baixa energia de produo se comparada a outros materiais como ao, concreto emadeira, o que pode resultar em baixo custo da construo;

    - curto ciclo de crescimento com grande e constante produtividade por bambuzal;

    - baixo peso especfico, o que reduz o custo de seu manuseio e transporte;

    - forma tubular acabada, estruturalmente estvel para as mais diversas aplicaes

    construtivas, inclusive como tubos hidrulicos;

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    - resistncia mecnica compatvel com os esforos solicitantes a que estariasubmetido o bambu em estruturas adequadamente dimensionadas;

    - aproveitamento quase total, e os poucos resduos gerados com seu emprego sobiodegradveis, reincorporando-se facilmente natureza;

    - possibilidade de se curvar o colmo (caule);

    - superfcie lisa e colorao atrativa;- durabilidade dentro das expectativas normais de vida dos materiais

    convencionais, relativamente s condies ambientais onde utilizado, seja ao ar livre ouenvolvido por outros materiais.

    Para o uso do bambu em grande escala como material de engenharia,economicamente vivel e com possvel industrializao, faz-se necessrio um estudocientfico sistemtico sobre sua propagao, plantao, colheita, cura, tratamento e ps-tratamento, alm de uma completa anlise estatstica das propriedades fsicas emecnicas do colmo do bambu inteiro. A partir desses estudos, ser possvel criarcritrios confiveis de dimensionamento e fazer-se o emprego de processos industriais,

    viabilizando economicamente o uso do bambu em grande escala.No Brasil, os primeiros estudos cientficos relativos ao bambu tiveram incio em

    1979, no Departamento de Engenharia Civil da Pontifcia Universidade Catlica do Rio deJaneiro (PUC-Rio), sob a direo do primeiro autor deste captulo. Desde ento, foramdesenvolvidos vrios programas de investigao do uso do bambu e das fibras naturais(sisal, coco, piaava e polpa celulsica de bambu) como materiais de baixo impactoambiental para serem empregados na construo.

    Neste captulo, pretende-se apresentar informaes gerais sobre o bamburesultados dos estudos das caractersticas biolgicas, fsicas, mecnicas e da meso emicro-estrutura do bambu, com a finalidade de sua aplicao na obras de engenharia.So mostrados os mtodos de ensaios de trao, compresso de elementos curtos,cisalhamento interlaminar e transversal, levando-se em considerao variveis comoespcie, idade, teor de umidade, origem e posio do colmo de onde a amostra foiextrada. Para se ter maior vida til, precisa-se levar em conta fatores como idade dobambu, tempo do corte, perodo de cura e secagem, alm de tratamentos contra fungos einsetos.

    A utilizao do bambu bastante disseminada em todo mundo, principalmente nospases asiticos. Japoneses, chineses e indianos utilizam essa extraordinria planta hmilhares de anos. Em certas regies, o bambu considerado uma planta sagrada, taisso os benefcios que ela proporciona. Na Amrica do Sul, a Colmbia destaca-se como o

    pas que mais investe na utilizao do bambu em construes. No Brasil, at agora obambu no recebeu a ateno merecida, pois ainda existe uma ideologia de associaressa planta pobreza, alm de serem pouco divulgadas suas caractersticasagronmicas e tecnolgicas. O bambu j utilizado no meio rural como tutor para plantas,demarcao de curvas de nvel, cercas, estrados, comedouros, esteiras, cestos, forros,proteo de terrenos, quebra-vento, controle de eroso, carvo, drenagem, conduo degua, alimentao, vara de pescar.

    Nas Figuras 1 a 4 podem-se ver algumas obras que mostram o grande potencial domaterial: casa de show construda inteiramente com bambu, incluindo a decoraointerna, divisrias e telhas, apresentada em Itanhang, no Rio de Rio de Janeiro,

    concluda em 1998 (Figura 1); catedral construda em bambu na Colmbia pelo arquitetoSimon Veles e pelo construtor Marcelo Vilegas (Figura 2); boate Cozumel construda nobairro da Lagoa Rodrigues Freitas, no Rio de janeiro nos anos noventa (Figura 3); pontes

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    de pedestre de bambu construdas na Alemanha e na Colmbia (Figura 4). No Brasil, aAssociao Brasileira de Materiais e Tecnologias no Convencionais, cujo endereo nainternet http/www.abmtenc.civ.puc-rio.br, vem incentivando a utilizao do bambu naarquitetura e na engenharia atravs da realizao de congressos, alm da participaoem projetos de engenharia e de casas populares, utilizando os dados de pesquisa sobrebambu do grupo de Materiais No Convencionais da PUC-Rio.

    Figura 1 - Casa de Bambu em Itanhang, no Rio de Janeiro

    (a) Vista frontal durante odia (b) Interior da Catedral

    (c) Vista frontal durante anoite

    Figura 2 - Catedral construda em bambu na Colmbia.

    a) Em fase de construo b) Aplicao de solo argiloso c) Estrutura j concluda

    Figura 3 - Boate Cozumel na Lagoa, no Rio de Janeiro, construda em bambu em anos 90.

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    (a) Ponte de bambu em Pereira, na Colmbia

    (b) Vista do vo de 53m

    (c) Ponte de bambu em Stuttgart-Alemanha

    Figura 4 - Pontes de bambu em Pereira, na Colmbia e em Stuttgart, na Alemanha.

    2 Os BambusOs bambus so gramneas gigantes, pertencentes famlia Poaceaee subfamlia

    Bambusoide formando parte da ordem Graminales, da classe Monocotyledoneaeque

    uma diviso das Angiosprmeae. O bambu nativo pode ser encontrado em todos oscontinentes, exceo da Europa e da Antrtida, desenvolvendo-se em toda a zonatropical da terra e em parte da zona subtropical. De acordo com Lopz (2003), das maisde 1600 espcies de bambu existentes no mundo, 440 delas so nativas da Amrica,1000 espcies so da sia e Oceania, e uma parcela pequena vem da frica.

    2.1 MorfologiaMorfologia a parte da botnica que estuda a estrutura das plantas. A estrutura

    externa do bambu formada por:

    - rizomas e razes- colmos

    - galhos

    - folhas

    - flores e frutos

    2.1.1 Rizomas e razes

    O rizoma o rgo vital na reproduo assexuada do bambu, que armazena etransporta nutrientes. O rizoma pode ser considerado como uma fbrica ecolgicasubterrnea, de onde a cada ano saem novos colmos que vo se multiplicando. Ele umcaule subterrneo composto de n, intern, broto e uma ou mais razes. Possui trs

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    padres de ramificao em geral: o primeiro, chamado simpodial, representa cada eixosucessivo que se torna dominante e volta a se desenvolver; o segundo, chamadomonopodial, consiste num eixo dominante e eixos secundrios derivados dele; o terceiro,uma mistura dos outros dois, conhecido como anfipodial.

    O rizoma simpodial tambm chamado de determinado,pois um nmero limitadode outros eixos produzido a partir de um eixo matriz. J o monopodial consideradoindeterminado, pois o eixo principal pode se desenvolver indefinidamente e continuar aproduzir outros eixos adicionais. Simpodial e monopodial podem descrever o padro deramificao de qualquer parte da planta e no somente do sistema de rizomas. De acordocom a morfologia dos rizomas, existem trs grandes tipos de bambu: leptomorfo,paquimorfoe metamorfo, que podem ser vistos na Figura 5.

    a) Paquimorfo b) Leptomorfo c) Metamorfo

    FIGURA 5 Classificao do bambus segundo os rizomas.

    Paquimorfo tambm conhecido como tipo moita, conglomerado, entouceirante,simpodial e determinado. tpico da zona tropical das Amricas, sia, frica e Oceania.O rizoma paquimorfo (Figura 5a) sli