008 a rela§£o entre o trabalho, a sade e as condi§µes de vida

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  • 1. Revista Latino-Americana de Enfermagem Print ISSN 0104-1169 Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.14 no.4 Ribeiro Preto July/Aug. 2006 ARTIGO ORIGINAL A relao entre o trabalho, a sade e as condies de vida: negatividade e positividade no trabalho das profissionais de enfermagem de um hospital escola1 The relation between work, health and living conditions: negativity and positivity in nursing work at a teaching hospital La relacin entre trabajo, salud y condiciones de vida: negatividad y positividad en el trabajo de profesionales de enfermera en un hospital de enseanza Marisa Aparecida EliasI ; Vera Lcia NavarroII I Psicloga, Mestre em Sade na Comunidade, Docente, Faculdade de Psicologia da Universidade Federal de Uberlndia, Fundao Educacional de Ituiutaba da Universidade do Estado de Minas Gerais, Instituto Luterano de Ensino Superior de Itumbiara, e-mail: mapelias@yahoo.com.br II Doutor em Sociologia, Docente da Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras de Ribeiro Preto, da Universidade de So Paulo, e-mail: vnavarro@usp.br RESUMO Este artigo resultado de pesquisa realizada com profissionais de enfermagem do Hospital das Clnicas da Universidade Federal de Uberlndia, MG, e teve por objetivo investigar as relaes entre o trabalho, a sade e as condies de vida daquelas profissionais. Os dados foram coletados atravs de entrevistas semi-estruturadas e de observaes do ambiente de trabalho. Os resultados apontam ser comum a ocorrncia de problemas de sade orgnicos e psquicos decorrentes principalmente do estresse e do desgaste provocado pelas condies laborais, com reflexos nas condies de vida. Paradoxalmente, os dados revelam que aquelas trabalhadoras no realizam seus tratamentos de sade de forma sistematizada. A anlise do trabalho, articulada questo de gnero e especificidade da atividade de enfermagem, contribuiu para melhor compreenso das condies de trabalho, vida e de sade desse grupo profissional. Descritores: enfermagem; trabalho feminino; condies de vida; condies de trabalho; sade do trabalhador ABSTRACT This article results from a research carried out among nursing professionals at the Hospital das Clnicas da Universidade Federal de Uberlndia (MG), located in Uberlndia (MG), Brazil, and aimed to examine the relations between these professionals' work, health and living conditions. Data were collected through semistructured interviews and observations in the work environment. The results indicate the common occurrence of physical and mental health problems, mainly resulting from stress and exhaustion provoked by work conditions, which cause interferences in their living conditions. Paradoxically, the results show that these workers do not realize their health treatments systematically. The analysis of their work, in combination with the gender issue and the specific nature of nursing work, contributed to a better understanding of this professional group's work, living and health conditions. Descriptors: nursing; women, working; social conditions; working conditions; occupational health RESUMEN Este artculo resulta de una investigacin llevada a cabo con profesionales de enfermera del Hospital das Clnicas da Universidade Federal de Uberlndia (MG), situado en Uberlndia (MG), Brasil y tuvo como objetivo investigar las relaciones existentes entre el

2. trabajo, la salud y las condiciones de vida de esas profesionales. La recopilacin de datos fue realizada a travs de entrevistas semiestructuradas y de observaciones del ambiente de trabajo. Los resultados indican que es comn la ocurrencia de problemas de salud orgnicos y psquicos provenientes principalmente del estrs y del desgaste provocado por las condiciones de trabajo, con reflejos en las condiciones de vida. Paradojalmente, los resultados sealan el hecho que estas trabajadoras no realizan sus tratamientos de salud de forma sistematizada. El anlisis del trabajo, articulada a la cuestin de gnero y la especificidad del trabajo de la enfermera, contribuy para una mejor comprensin de las condiciones de trabajo, vida y salud de este grupo de trabajadoras. Descriptores: enfermera; trabajo de mujeres; condiciones sociales; condiciones de trabajo; salud laboral INTRODUO As transformaes ocorridas nas ltimas dcadas no mundo do trabalho tm repercutido na sade dos indivduos e do coletivo de trabalhadores de forma intensiva. A incorporao crescente da microeletrnica, da informtica, da telemtica e da robtica, somadas a um novo e complexo conjunto de inovaes organizacionais modificou profundamente a estrutura produtiva dos pases capitalistas avanados e, em nveis diferenciados, a dos pases de desenvolvimento capitalista tardio, como o caso do Brasil, provocando mudanas profundas na organizao, nas condies e nas relaes de trabalho. A intensificao laboral trao caracterstico da atual fase do capitalismo e tem levado ao consumo desmedido das energias fsicas e espirituais dos trabalhadores. A insegurana gerada pelo medo do desemprego faz com que as pessoas se submetam a regimes e contratos de trabalho precrios, percebendo baixos salrios e arriscando sua vida e sade em ambientes insalubres, de alto risco. Caracteriza tambm essa nova conjuntura o crescimento, em escala global, da explorao da fora de trabalho feminina, que leva complexificao das relaes entre gnero e classe. Na diviso sexual do trabalho, operada pelo capital, geralmente as atividades de concepo ou aquelas baseadas em capital intensivo so preenchidas pelo trabalho masculino, enquanto aquelas dotadas de menor qualificao, mais elementares e freqentemente fundadas no trabalho intensivo so destinadas s mulheres, o que estaria deixando-as mais vulnerveis superexplorao(1-2) . O trabalho na rea de sade nos serve de exemplo. Nas dcadas de 1970 e 1980, principalmente a partir de 1975, o mercado de trabalho em sade se expandiu significativamente tornando-se um ramo de expressiva absoro de mo-de-obra(3) , entretanto, a expanso de vagas no setor no se fez acompanhada de significativa melhoria nas condies de trabalho. Tomando como objeto de estudo o trabalho das profissionais de enfermagem do Hospital de Clnicas da Universidade Federal de Uberlndia, MG (doravante grafado como HC/UFU), a pesquisa teve por objetivo investigar as relaes entre essa atividade e a sade das profissionais que a realizam, quais so as negatividades e positividades presentes em seu cotidiano laboral, bem como saber em que medida isso repercute nas condies de vida dessas mulheres. A motivao para a realizao desta pesquisa surgiu a partir do trabalho de uma das autoras, psicloga que, durante seis anos, prestou atendimento aos trabalhadores do HC/UFU, em ambulatrio de sade mental. A grande procura pelo atendimento, principalmente por funcionrios do hospital (especialmente aquelas que trabalhavam em enfermagem) sensibilizou a autora e a levou a buscar entender um pouco mais a respeito daquela realidade. O TRABALHO NO HOSPITAL O hospital, de maneira geral, reconhecido como um ambiente insalubre, penoso e perigoso para os que ali trabalham. Estudos anteriores(4-5) apontam-no como local privilegiado para o adoecimento. Alm dos riscos de acidentes e doenas de ordem fsica aos quais os trabalhadores hospitalares esto expostos, o sofrimento psquico tambm bastante comum(4) e parece estar em crescimento, diante da alta presso social e psicolgica a que esto submetidos aqueles trabalhadores, tanto na esfera do trabalho quanto fora dela. As difceis condies de trabalho e de vida podem estar relacionadas com a ocorrncia de transtornos mentais como a ansiedade e a depresso, freqentes entre as auxiliares de enfermagem(6) . A enfermagem est ligada, desde suas origens, noo de caridade e devotamento, sendo seus primeiros executores pessoas ligadas igreja, ou leigos praticando a 3. caridade. Esse fato imprimiu marcas que perduram at hoje e se explicitam na concepo de enfermagem de alunos e enfermeiros. Com o passar do tempo, o hospital deixou de ser um lugar para onde as pessoas eram levadas para esperar pela morte e se transformou em espao de cura(7) . A ideologia que perpassa a profisso desde sua origem significa abnegao, obedincia, dedicao. O conflito para esses trabalhadores fica evidente dado que a motivao caracterizada por sentimentos idealizados da profisso conflita com a realidade determinada pelo mercado de trabalho capitalista(7) . O carter caritativo religioso das prticas hospitalares, mesmo no modo de produo capitalista, se mantm at os dias atuais, o que origina ambigidade entre o assistencialismo gerado pelo esprito caritativo e as regras tpicas da organizao capitalista do trabalho. A diviso do trabalho no hospital reproduz em seu interior a evoluo e a diviso do trabalho no modo de produo capitalista, sendo preservadas, no entanto, as caractersticas caritativo-religiosas. O hospital carrega o nus da dor, da doena e da morte desde sua criao. O processo de trabalho hospitalar parcelado e reproduz as caractersticas da organizao do trabalho industrial, o que produz trabalhadores ora compromissados, ora desesperanados. Ele freqentemente repete a lgica do trabalho taylorizado, muitas vezes oculto pelo discurso do 'trabalho em equipe'(8) . A incorporao de novas tecnologias no significa, nesse setor, o "alvio da labuta humana", ao contrrio, o setor essencialmente de trabalho intensivo(8) . Na literatura cientfica cresce o nmero de comunicaes referentes a agravos psquicos, a medicalizaes e a suicdios de mdicos, enfermeiros e porteiros de hospitais(4) . As atividades dos profissionais de sade so fortemente tensigenas, devido s prolongadas jornadas de trabalho, ao nmero limitado de profissionais e ao desgaste psicoemocional nas tarefas realizadas em ambiente hospitalar(9) . O ambiente hospitalar, per se, apresenta aspectos muito especficos como a excessiva carga de trabalho, o contato direto com situaes limite, o elevado nvel de tenso e os altos riscos para si e para os outros. A necessidade de funcionamento diuturno, que implica na existncia de regim